a batuta do olhar
domingo, 5 de julho de 2026
Viva a cultura! O povo pobre é aquele que não tem meios dignos de sobrevivência (também) pela cultura (sejam quais forem as razões). Conhecer é poder e é um bom caminho para a liberdade. Ainda que saibamos que o poder da imagem, da palavra e da arte nos cercam, nem sempre da melhor maneira...De tal maneira que os excessos e as contradições enfraquecem a sua influência e a sua pedagogia. A imagem é visibilidade e na sociedade atual, a tecnologia serve (também) para vender ilusões. Ilusão do protagonismo, por exemplo. Não queremos morrer pela indiferença do outro. O outro existe porque é visto. Voyeurismo? É pena quando a cultura de qualidade, do conhecimento e de reconhecimento se transforma numa cultura de superficialidade e de imediatismo. Muito do que é feito é para atrair a atenção. Fama é ser conhecido. E se os likes deixassem de ser o momento de supremo reconhecimento? Qual é o critério entre aquilo que é interessante e o desinteressante, entre a arte e o fútil, entre a aprendizagem e a manipulação ou a ilusão? Partilhar e ser visto para quê?
sábado, 4 de julho de 2026
Apagámos as luzes, exceto a da mesa de leitura. Vamos ler? Na realidade, está lua cheia. Abrimos a porta da frente e a nossa rua sem saída está bem iluminada pela luz natural e pela luz do candeeiro de rua. 26 graus e são vinte e duas horas. Mesmo para o Alentejo, mesmo para julho, são temperaturas quentes. A casa esteve em penumbra durante o dia e as paredes são grossas, mas mesmo assim...vamos ler para a rua. Há sossego; apenas a vida noturna dos insetos e dos carros ao longe na rua principal da aldeia. Encosto-me ao muro da frente e leio. A música acompanhava os malabaristas, a coragem dos trapezistas, as habilidades dos cãezinhos amestrados, as palermices dos palhaços desastrados...e muito mais. A certa altura, o espetáculo acabou: palmas, agradecimentos, assobios, rugidos...E o silêncio do livro deixou-me contemplativa e fiquei simplesmente a olhar a noite.
Mesa de leitura/Rosa Maria Duarte/55x46xÓleo s/tela
A porta da rua/Rosa Maria Duarte/Óleo s/tela/55x46
sexta-feira, 3 de julho de 2026
Toca o despertador. Não podemos chegar atrasados. O relógio digital (ou não) está na nossa cabeça tic-tac tic-tac. Parece o crocodilo do capitão gancho a aproximar-se do nosso barco. Será que engolimos um despertador? Ou somos heróis como o Peter Pan? Há que acelerar e chegar a tempo. Onde? Seja onde for, a pontualidade é crucial. Não perder tempo. Ou somos ainda aquelas crianças levadas pela mão da mãe ou do pai, ou outro adulto, quase de arrastão, porque ainda estamos a acabar de sonhar o último sonho da noite, de olhos abertos. Movimento, palavras, espaços, carros, pessoas, cores quase misturadas...A nossa genuína criatividade latente à espera de se libertar da rotina e da factualidade nervosa...e a bola entrou mesmo na baliza, mamã.
quinta-feira, 2 de julho de 2026
Fastread poetry
Pequeninas
somos nós flores-pessoas
ou grãos de areia fina
cor de pele luminosa
a olhar o mar fresco
azul quase branco
de tanto sol brilhante
num dia mesmo tórrido
e voamos às vezes
nos braços da aragem
quente e saborosa
mas paramos felinos
a queimar os pés
de gigantes incautos
que levam ideias
para monitorizar
o pensamento livre
se é tempo da I.A.
que nos valha o rumo
da voz do areal infinito
só vale a beleza natural
e a força fresca divina
tons de som universal
essa vontade escaldante
para uma areia paciente
da humana condição.
.
quarta-feira, 1 de julho de 2026
Eis os meus saudosos pais no dia do seu casamento. Talvez pelo ano de 1955. Uma foto emoldurada que conheço desde sempre porque estava dependurada numa das paredes da nossa sala, na rua de Alcântara. Quando olhamos o passado, sentimos curiosidade...se existirem registos, tanto melhor. Aprendemos pelas fotos e/ou pela leitura de cartas, diários, memórias dos nossos antepassados o que a vida, em determinados momentos, significou para eles. Percebemos pela consciência como essa(s) pessoa(s) pensava(m) e sentia(m) naquela altura. São interpretações feitas de determinadas vivências, que emergem da consciência e passam para nós outros, às vezes para a sociedade. Procuramos, ao longo da vida, cruzar testemunhos com factos. Mas quantas vezes não lemos o nosso próprio diário com alguma estranheza porque vivemos momentos de forma distinta e à medida que ganhamos mais maturidade e compreensão, vamos reescrevendo a nossa história...ou talvez não...
terça-feira, 30 de junho de 2026
Quem somos nós? Já se fizeram tantas descobertas e conquistas por mar, terra, ar e até fogo, mas o ser humano ainda é a maior incógnita...ou não...O nosso sopro vital ou energia misteriosa que nos dá vida de que será quimicamente constituído? Pois...Dependemos da energia do(s) outro(s) para respirar tranquila e saudavelmente? As relações interpessoais não são fáceis, mas são vitais para a sobrevivência. Por exemplo, na relação pai-filho, e não só... E sem comunicação, não há projeto que valha. As culturas e sociedades agrupam-se de acordo com a língua e outras afinidades e separam-se pelas diferenças e desentendimentos. Constrói-se e destrói-se. As barreiras semânticas e as mentalidades dividem e criam estranheza. Sem comunicação, não há proximidade nem se criam laços. Apesar de todas as idiossincrasias individuais, entre cada comunidade, entre cada nação, há sempre possibilidade de comunicação e de intercâmbio, como sempre tem acontecido, ainda que nem sempre com sucesso, na história da humanidade. O reconhecimento do outro é o grande passo...
domingo, 28 de junho de 2026
A música é uma linguagem muito libertadora e comunicadora. É um instrumento de cultura, conhecimento, mas também de encontro. Nos múltiplos contextos, a música ao vivo é a mais apreciada e desafiadora. Na sua autenticidade, há sempre um sentido mais oculto, simbologias que ressaltam, mensagens nos pretextos e nos subtextos. A música é infindavelmente criadora e universal, nos seus vários estilos e influências. E as palavras são o recurso de excelência. Dizemos o que nem sempre conseguimos sem o ato musical. A força da linguagem musical é tal que pode levar a ações diferenciadoras e mudanças no mundo. Sentimo-nos mais próximos, quando a solidão e a frustração ateimam em magoar. É um amor verdadeiro que existe entre a poesia e a música. São boas companheiras de viagem...
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