a batuta do olhar
sexta-feira, 19 de junho de 2026
Baixam-se as luzes. O apresentador acalma o entusiasmo. As palavras desenham o momento. Os olhos dos músicos, dos espetadores, estão aguardando a escolha do fado. Para trás ficaram as afinações das guitarras. Para trás, ficaram os rumores do grupo que se vai aquietando. Acertam-se os tons, a melodia, o compasso. Fazem-se ouvir sucessivos acordes que evocam alguma improvisação na cumplicidade dos três. Da aparente desordem nasce a melodia tradicional. Estamos a escutar o fado. A voz do/a fadista irrompe suave ou energicamente. Em crescendo. Há o compromisso com o poema vestido de notas musicais. Há um enredo cantado do quotidiano. Novo crescendo sentimental que o/a fadista canta com entrega e verdade. Sem silêncio, não há fado. O público não se pode distrair, inventar, mentir. Será crime se o fizer. Somos pequenos deuses na verdade dos sentimentos. Só quem vive o fado e para o fado sabe que ele é mais do que um momento: é a vida de quem partilha dor, alegria, palavras dançantes com a melodia. Só com respeito nasce o fado. Nem egos, nem mexericos. Apenas a humildade de quem se oferece ao fado.
quinta-feira, 18 de junho de 2026
Aqui a olaria é uma recuperação dos ensinamentos ancestrais. Os objetos úteis ao serviço do homem são tão antigos como a sua história. Mas o poder criativo foi libertando-nos do imediatismo e do utilitarismo. Por isso os artistas, que muitas vezes começaram por ser simples artesãos, criam e criaram formas novas ou reinterpretadas que atribuem significados diferentes às coisas. Apresentam ideias sem as definir. Maravilham-nos com as suas obras sem se preocuparem com regras, normas ou sistematizações. A obra de arte chega aos outros pela sua estética. O trabalho artístico comunica pela sua criatividade, originalidade e beleza.
quarta-feira, 17 de junho de 2026
Dom Vasco da Gama nasceu em Sines, ao que tudo indica. Desbravou caminhos por mar. Não construiu arranha-céus, mas uma história de conquistas, de aventuras e descobertas. Uma sociedade que se construiu e continua a construir por feitos, uns maiores do que outros. A torre de Babel, muito antes dele, foi o primeiro arranha-céus da humanidade, símbolo de ambição, opulência e de fragilidade, ao mesmo tempo. Seremos o povo do 5º império, da partilha, do ecumenismo e da boa convivência entre culturas, povos, idiomas, artes?
segunda-feira, 15 de junho de 2026
Temos rios e temos mar. Somos uns privilegiados! A cor da água é dada pelo fundo, mas também pela claridade do dia. O rio Tejo encontra-se com o oceano Atlântico junto a Lisboa. Antes de se misturar diretamente com o mar, alarga-se e forma um grande estuário natural: o Mar da Palha. Segundo a tradição local, a foz e o ponto exato de transição entre o rio e o mar são assinalados pelo histórico Farol do Bugio. Não estou a olhar nem o rio, nem o mar, porque estou aqui em casa a escrever, mas estou a recordar um passado muito recente. Se conseguimos recordar, é porque a realidade do tempo se inscreve numa outra duração, uma realidade interina que se insere numa realidade eterna...É o tempo denso da reflexão, da contemplação, da criação artística, do deslumbramento, dos sentimentos...
domingo, 14 de junho de 2026
Ontem, na taverna do Zé, almoçámos juntos, cantámos juntos, conversámos juntos mais o santo António. Se a beleza desperta em nós o prazer, então é uma beleza subjetiva, mas se a beleza estiver numa imagem ou num poema musicado, então a beleza é observável, é audível, é objetiva. Ainda que a intensidade do prazer que nos desperta seja sempre subjetivo.
sábado, 13 de junho de 2026
Eis as festividades dos santos. Quem nasceu e cresceu num bairro popular, como eu, sabe que as nossas vivências passaram (ainda passam?) pelo convívio de rua. A nossa história é a nossa identidade, com orgulho, acho. Como pesar o valor dos símbolos pelos quais as sociedades se autointerpretam? A experiência humana apresenta-se como um fluxo de acontecimentos irreversível que cada um vive à sua maneira, mas que tendem a ser revisitados e, até, ritualizados. As experiências de vida moldam-nos e transformam-nos no que fomos, no que somos, no que seremos. Vivemos num mundo com ideias e simbologias transmitidas de geração em geração. E vamos escrevendo a nossa história, porque a nossa vida continua. As ações e decisões presentes irão reverberar no futuro. Agradecer é um ato a preservar. Façamos um brinde ao convívio social. E ao jovem António pela sua humanidade e santidade!
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