Cordilheira mântrica/Rosa Maria Duarte/Óleo s/tela/55x38
quarta-feira, 29 de novembro de 2023
«E no seio de um imenso silêncio montanhoso, repentinamente vibrou um visceral uivo distante cujo eco, mais penetrante do que o som original, se desdobrou noutros ecos, se fundiu com eles, formando uma espécie de mântra gutural extraordinário poderoso, captado não pelos ouvidos de São sentada em lótus numa cordilheira qualquer, mas pelo seu corpo búdico. E saudou em pensamento ao seu irmão lobo.»
terça-feira, 28 de novembro de 2023
«Sob um luar de quase dezembro, São pressentia a cidade a adormecer aos poucos, os transeuntes e os carros a escassear, pequenos canteiros junto às estradas a sossegar as ervas pisadas de rua junto às magras árvores em crescimento. Se São dormitava numa intermitência de enlevo e experiência espiritual, sentia-se sem se ouvir. Mais um silêncio suave de noite. Então São deixou o seu corpo entregar-se e escorregar pelo túnel escuro do adormecimento e foi empreender nova ronda por outra ala hospitalar...»
segunda-feira, 27 de novembro de 2023
«O cair da água poderia soar se caísse naquele vazio de fonte a um quase abandono, não fosse o amor do canto do melro anunciar a saudação de dona São que, de saída, levava uma emoção viva de comunhão renovada com o seu pequeno quotidiano. Para respirar, bastava-lhe aquele ar seco e frio de outono de uma cidade que, em tempos, fora muito rústica.»
domingo, 26 de novembro de 2023
«Não era tarde, mas o sol já se ia pondo... Pesava uma atmosfera fria e nostálgica, com aromas a castanha assada e bedidas quentes. Era final de novembro naquele jardim onde os galos cantam, os patos chapinham, os cães inquietam-se presos por trelas, as luzes de natal assinalam a chegada do inverno. Boas e menos boas as memórias que daquele lugar de Lisboa qualquer pessoa podia e pode ter...»
sábado, 25 de novembro de 2023
«A pequena Sãozinha gostava de ajudar, e fazia-o com gosto e alegria. Gostava de ir para o campo com os pais e as irmãs, ainda noite, ajudar nas regas que estavam combinadas assim com os vizinhos. Gostava de animar as pessoas e os bichinhos à sua volta. A cada bonita joaninha punha-se a cantarolar 'joaninha voa, voa, que o teu pai foi a Lisboa, buscar uma saca de farinha para a nossa joaninha'. E esquecia-se do resto, perdendo-se pelo labirinto do milheiral a pular e a levantar a cabeça para olhar entre as maçarocas as estrelinhas do céu. Quando chegaria a de Belém?»
sexta-feira, 24 de novembro de 2023
quinta-feira, 23 de novembro de 2023
Fastread poetry
Somos as mães a embalar essa meninice de cada memória
de cada presente franzindo ventos de longe a frente geada
de gente germinada pelo som da natureza em renovação.
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