domingo, 15 de março de 2015

a casa do sol

A Casa do Sol

Quando o sol recolhe no horizonte, vai para casa dormir. Bem merece!

Mas a sua luz é tão intensa que as paredes da noite não conseguem esconder todos os raios, sobretudo os que se distendem mais pelo sono dentro.

Eu também não sabia, mas o sol atualmente já ressona. É uma estrela adulta que não modera o seu gosto pela vida e respira a céu aberto, com ruido e alguma deselegância.

As outras estrelas mais novas riem-se ao sentir-lhe os movimentos luminosos desajeitados a tais distâncias que, mesmo de portas vedadas, faz com que a lua esteja sempre de olho nas nesgas de sol.

Por isso é que a noite nunca fica de todo escura. Senhora romântica como ela é, o seu manto é feito de reentrâncias para deixar a luz que chega dos lados do poente da casa do sol se una delicadamente à luz feminina da lua. Até ser dia.




título: A Casa do Sol
Carvão, pastel, cera
rosa maria Duarte
 

sexta-feira, 13 de março de 2015

Como é bom conversar a cantar Lisboa!


Ser ou não ser?

Eis a velha questão shakesperiana sempre pertinente.

Somos seres insatisfeitos, quais vasos comunicantes, cantantes, quando não diletantes, certo?

Talvez cada vez mais urbanos e telecomunicativos.

Continuamos a gostar, ainda assim, da boa cavaqueira tête a tête (malgrado os fatelas sempiternos…)

Mesmo quando estamos cansados de conversar, continuamos a falar na nossa cabeça.

No silêncio desejado, as palavras libertam-se e escrevem-se sozinhas, dentro e fora do seu pensador. Saltam do olhar, de um gesto, do telemóvel, dum papel, do computador, dum tronco de árvore, do wc…

Não há ruído que corte a raiz ao pensamento. Nem a careta mais idiota e cobarde, dissimulada nas costas alheias, consegue evitar um inevitável e quiçá bom diálogo.

Desde os tempos imemoriais que vão aparecendo uns seres humanos convencidos que podem impor aos outros a sua tristeza. Julgar e amordaçar.

Propósitos risíveis de pseudojustiça…

Condicionar a comunicação… Se, na realidade, nunca tal foi deveras conseguido, muito menos alguma vez será nesta era das (tele)comunicações.

Qual será a qualidade de interação dos autoeleitos carrascos da comunicação controlada/vigiada?

Qual será a qualidade ética dos seus pensamentos? Qual será a saúde emotiva dos seus dias repetidos?

Se somos o que pensamos, não há como uma boa ecologia mental.

É que o medo estraga a liberdade.

E ser ladrão da alegria não compensa o crime; até a própria adrenalina seca. O que é uma seca.
 
Desligar a música não dá, porque é imortal e imordaçável. No coração humano há uma saborosa tertúlia à mesa do sentimento à espera de companhia...

Será que ainda se pode roubar a voz à vontade de cantar?

Pobre gente coitada! Desafina o tom do próprio diapasão divino.

Roubar asfixia pela frustração o seu próprio mérito. Os ladrões nunca poderão ser pedagogos.
 
Assim como assim, conversar sempre ajuda a aguentar e a cantar Lisboa. E que grandes fadistagens!
                                                                             Lisboa, 13 de março de 2015
                                                                                   Rosa Maria Duarte
título: pormenor de Lisboa
desenho a lápis de cor, de cera e pastel
rosa maria duarte

Casava contigo, se pudesse...






homenagem a Lisboa





quarta-feira, 11 de março de 2015

quarta-feira, 4 de março de 2015

crónica publicada no «Setúbal na Rede» e no «Diário da Região»

http://www.setubalnarede.pt/content/index.php?action=articlesDetailFo&rec=22503

Educação
por Rosa Duarte
(Professora)
      

Acabar de vez com os adjetivos

 
Hoje em dia não é fácil escrever sem carregar nos condimentos adjetivais. Ou argumentar sem colecionar estufas de adjetivos. Ou ser promovido sem uma conduta proadjetival. E sem consumir doses diárias não recomendadas de adjetivos numerais.

Os sentidos subentendidos são também muitos apreciados, qual estratégia para ajudar a baralhar e a não pensar. A clareza das frases está moribunda (como aquela d’ “a qualidade da educação determinar a moral do cidadão e da sua nação”; esta já quase que era…).
 
Tudo muda a todo o instante. O bom aluno de hoje é o mau aluno de amanhã, ou vice-versa. E ninguém chega a saber o porquê, claramente. As ideias sinceras ficam para depois. Talvez no último suspiro ou, quem sabe, num banquinho de réus…
 
Porque o coração tem as suas razões e a razão continua a desconhecê-las. Vivem-se tempos estrategas de austeridade cada vez menos comunitária.
 
É o sopro ao ouvido para criar expectativas … São, no mínimo, apregoadas e estranhas pedagogias: “Portugal seria um bom aluno, se conseguisse boa nota”. Temos pena!
 
Assim se dá como aberta a caça engenhosamente malabarista ao trabalhador honrado. Autênticas perseguições do tipo auto-de-fé com rituais duplos de adulações e prepotência maniqueísta.
 
 E a culpa mais à mão aponta geralmente os mass media. Que tem levado tudo a perder. Que precisa de levar por tabela à conta das corrosivas técnicas do marketing, das campanhas eleitoralistas, das paixões desportivas, dos interesses economicistas, dos comentadores quase políticos…e então programas?… chega de Grandes Irmãos…
 
Ao fim e ao cabo, um país à mercê do produto humano poderoso que espelha uma vontade em rede e escolhas em cada perfil marcelista (convenhamos que nem todas as escolhas boas precisam de ser más).
 
As audiências revelam-se fracas quotas no convívio português. Com alguma sorte, há um auditório diferenciado com preocupações de alinhamento diário na família, curtos tempos de antena disponíveis e algum fôlego para a recarga do indivíduo por si.
 
No meio de tanta informação e conversa, mesmo para quem não percebe nada de psicologia, vai apanhando a diferença entre repressão, bajulação e descontentamento.
 
Vá lá que hoje em dia os conflitos são mais progressistas. Que na sociedade das nações as batalhas hodiernas são mais diversificadas e extremistas. Ora dizimam populações com chaimites. Ora sugam a identidade e a liberdade com discursos gaseificados, ludibriadamente visionários e compassivos.
 
A arma vital ou letal, como queiramos, da comunicação consegue ainda mais façanhas bélicas, com tipos de munição verbal de última geração. Em cada investida, disparam uma miríade de interpretações e conjurações.
 
Então, o que nos vale são os mais afoitos, que são ou vai ou racha: desembainham exércitos de verbos para lutar contra os discursos enfeitados de companheirismo, e procuram incansavelmente desviar o alvo a abater que, inteligentemente, é tão somente a histórica humanidade. Será que há algum deus que nos valha?
 
Ainda temos a medicina… Que em qualquer consulta médica, perante tal diagnóstico, o conselho parece ser uma campanha de higienização discursiva e ética. No mínimo, uma remoção aturada das cáries mais antigas e, nos casos graves, a desinfestação e desbaratização dos dizeres inflacionados ou conspirativos.
 
Para baratezas, já nos bastam os espíritos descontinuados. Como os materialistas desgovernados Sanchos Panças.


 

Rosa Duarte - 04-03-2015 14:06

[Setúbal na Rede] - Acabar de vez com os adjetivos

[Setúbal na Rede] - Acabar de vez com os adjetivos