segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Crónica de opinião publicada no «Diário da Região»


Há tanto para fazer, meu Deus!

Rosa Duarte

Rosa Duarte

Mestre em Estudos Portugueses
Este título é uma autêntica provocação. Em pleno mês de férias, falar em trabalho?!…
Nós sabemos que trabalhar é muito mais do que executar diariamente as tarefas inerentes a uma profissão.
Mas mesmo com rotinas de esforço a cumprir, férias são férias. Com saúde e algum dinheiro, claro. É nesta altura que o tempo é um pouco mais nosso amigo.
Contudo, há pessoas que vão de férias e não descansam nada. Ou porque ficam em casa para aproveitar o tempo a pintar as divisões e resolver assuntos pendentes… Ou porque vão à praia, mas sofrem imenso com o estacionamento… Ou porque juntam muitos amigos e não param um momento… Ou simplesmente não fazem nada de novo, porque não podem, ainda que estejam de férias, o que é algo frustrante…
O subsídio de férias sempre ajuda a aguentar…
Este ano é mais um que conta com um clima bom, um país em festa e a esperança que não morre no amanhã (salvo problemas sérios bem conhecidos). Moderação e ponderação, aproveitando os momentos de vontades e possibilidades.
Os senhores problemas não se compadecem com o calendário de férias. E por isso as patroas diligências para os resolver não podem afrouxar (demasiado) só porque agosto é de férias.
Em cada dia uma aula de matemática, somatório de horas boas, menos boas, rotineiras…
Organismos em agosto (ou noutro período de férias) que ficam mais predispostos para o descanso, a serenidade, o convívio, o bom humor, o conforto, a amizade.
E há tanto para fazer, meu Deus, no campo da amizade.
Amizade, essa palavra bonita que precisa de ser regada 24 horas com as cores do arco-íris para ficar à prova de malandrices e granizos violentos.
Olhamo-nos de vez em quando, seres humanos, e vemos desfocadamente como poços (adultos com 60% a 75% de água) cheios de virtudes e limitações q.b.. E temos, felizmente, a imaginação por companhia de braço dado com o ilustre ego, mais ou menos no epicentro de si-mesmo, qual protagonista das aventuras mais inventivas que faz as delícias dos mais traquinas.
Quando nos sentamos e conversamos, deliberamos quando compreendemos que todos somos autores e personagens de muitas peripécias.
E damo-nos conta da história diária a escrever-se ao sabor de cada vida.
Se podemos, tomamos a dianteira e teclamos alguns (bons…?) momentos a bel-prazer, segundo o nosso potencial de vivências e competências. Achamo-nos narradores participantes.
Mas muitas vezes os acontecimentos vão-se desenrolando pela mão de um autor alheio (o destino?) que não se compadece com todas as vontadinhas da(s) sua(s) personagen(s) e delibera a cada passo reformulações na estrutura diegética da narrativa, escolhendo-se a si mesmo para o narrador heterodiegético.
Vidas. Cada uma numa corrente alternada que para no fim e ao cabo grita: – É imperativo a dignificação da amizade com gestos de ternura, diálogo, bem-estar e aprendizagem mútua.

É a voz da velhice humana que se quer consentida e com sentido.


Planos de uma viola.



Viola de fado
Rosa Maria Duarte
Óleo s/tela
50x60






domingo, 3 de setembro de 2017

O sonho de um menino de luas.

- Mãe, um dia podemos ir visitar a lua?

- Quem sabe, filho, da forma como o mundo tem avançado. Mais tu do que eu.

- Achas que vai demorar muito tempo?

- Bem, tu já andas sempre com a cabeça na lua, mesmo quando não estás a pensar nela.

- Se a lua me visita quase todas as noites, é porque deve ter alguma coisa para me dizer...

- A ti e a muitos meninos aluados como tu.

- O que é ser aluado?

- Olha, querido, tu nem és propriamente aluado. Gostas da lua, mas és ajuizado. Devias era de sonhar menos acordado e brincar mais às brincadeiras dos meninos da tua idade.

- É incrível, não é mãe? A lua vê-se tão bem e está tão longe!

- E o mais incrível é que o que se entrevê nem sempre é fiel à verdade.

- Há tanto que descobrir, mãe!







sábado, 2 de setembro de 2017

Um beijinho.


Nascemos e morremos sozinhos.

Nasci assim sozinha sem muita vontade de chorar.
Estava bem por existir e querer conhecer o mundo.
Era o ventre da minha mãe uma casa bem quentinha.
Os meus pais e meus irmãos uma séria casa de família.
Fiz um e mais outro chichi na minha simples caminha.
Os papéis e os lápis foram eleitos ocupações divinas.
A rua das Fontainhas, palco de muitas brincadeiras.
A escola e algumas colegas minhas novas companhias.
O curso de datilografia uma oferta e vontade minha.
O trabalho de dia e escola à noite um jeito de ajudar.
Namorar e talvez casar para uma bonita família formar.
Ensinar para aprender uma escolha vocacional infinda.
Alta missão-maternidade: um sonho com intenção linda
de devolver ao milagre da existência a criação em linha. 
Escrever, pintar, cantar, paixões com larga devoção sofrida.

Viver para contar-la, o incontável de um coração a bater
entre vontades e metades de entusiasmos e de cansaços.
Viver o vivível de um ser sensato que procura no seu interior
o está dentro e fora de si para aprender e crescer e morrer.

Medo humano. Nascer e morrer apenas com a visita da sorte.
E vai-se sem ficar ao nosso lado. Nascer e morrer só consigo.


Rosa Maria Duarte





sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Auto do Carro Divinal

- Ó do carro divinal? 

- Quem vem lá?

- Ora, uma alma perdida do carro mal estacionado. 

- Oh 😐! Temos pena. 😩

- Fui só num pulinho levantar dinheiro ao ATM mais próximo.

- Prevaricaste. A tua alma está multada.

- Ai a minha vida! Fico com o dia de trabalho perdido! 

- Para a próxima já sabes... Toca a obedecer à supremacia.



A festa da uva.

- Julieta, querida, vens comigo apanhar umas uvas?

- Romeu, adorado, só se puder dar uns beijinhos aos bagos.