domingo, 4 de fevereiro de 2018

O telefone toca e eu atendo.

És tu que me queres dar a novidade. Nasceu mais um dia de grandes aspirações. Não vou dizer nada a ninguém. Por enquanto. Eu não conto porque me pediste que não conte a ninguém. Claro que não conto a ninguém. Nem sei ainda o que é. Mas não conto a ninguém, claro. Vais concretizar o teu sonho. Ah! Fabuloso! Nunca é tarde para o fazer. Ouviste um programa de rádio sobre isso? Ainda bem que te inspirou. Não digo a ninguém, está descansada. Mas não digo o quê? Claro, já percebi. E tens os recursos necessários? Claro que vais ter apoio! A família é muito importante para nos apoiar. E os amigos também. Podes contar comigo. Vais lançar o teu primeiro livro? Finalmente. Não é segredo para os mais próximos. Claro que não é fácil encontrar uma editora que confie no nosso trabalho. E não é só isso. Não é fácil singrar no mercado. Há muita gente com talento a escrever. Gente jovem e menos jovem e já consagrados. Mas sonho é sonho. E os consagrados eram antes anónimos. Há que fazer caminho. E acreditar. Ter uma editora já é um grande passo. Estou contigo. É sobre quê o livro? Ficção? Eu gosto muito de ficção. Boa ficção. Tu tens sensibilidade. Não precisas de falar sobre o livro porque tenciono lê-lo. És minha amiga. E os que não te conhecem?! Bom, nós vamos passando palavra. E depois logo se vê. Quem sabe. Quando temos gente que vê o nosso melhor, já é muito gratificante. Podes usar as redes sociais, claro. Eu acho que é o melhor uso que se pode dar às redes sociais. Usá-las para fins de trabalho. Cultura. Arte. Enfim. Cada um usa-as para o que entende. Se precisarem de mostrar o sushi que comeram ao almoço, força. Não sou eu que vou criticar. Cada um com as suas cenas. Desde que não comprometa o bem comum, claro. Estou muito feliz por ti. Penso que poderei estar no lançamento. Depois lembra-me. Os filhos e marido mandam-te muitos beijinhos. Bem vês que a partir dos cinquenta ainda se podem concretizar muitos sonhos. De preferência, sonhos de qualidade.
Sim, podes telefonar quando quiseres. Está à vontade. Amanhã? Pode ser. Fica bem, moça. As palavras são um mundo fascinante. Mais duas. Muitos beijinhos.


Conversar com a tela


Conversar com a tela
Rosa Maria Duarte
Óleo s/tela
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sábado, 3 de fevereiro de 2018

A anedota da Anne Bota

- O que é que vais oferecer à tua miúda no dia dos namorados?

- Talvez um casaco de peles.

- Não tens consideração pelos animais.

- Tens razão. Talvez um cãozinho.

- E depois quem é que o traz à rua?

- Tens razão. Talvez antes a leve a jantar.

- Mas ela não está a fazer uma dieta rigorosa?

- Tens razão. Talvez um bilhete para ver comigo o Benfica.

- Mas ela não é do Sporting?

- Então o que é que sugeres, pá?

- Talvez um anel de noivado.

- E quem é que casa com ela?

- 😶??




Queres pensar comigo V

- Acho que as pessoas já não falam tanto dos filhos como faziam dantes. Não te parece?

- É curioso esse teu pensamento. Nunca pensei nisso. Talvez tenhas razão. Primeiro porque ter filhos deixou de estar no topo das prioridades. Em certas sociedades desenvolvidas e mesmo nas mais conservadoras que só muito recentemente deram mais espaço de escolha às mulheres.

- Sim, como a nossa.

- Sim. Depois a mentalidade também foi mudando aos poucos. Ainda há pessoas que passam todo o tempo a falar dos filhos. Por um lado, é bom, porque revelam o seu foco de interesse nos filhos. Por outro, é a forma como se fala deles. Desabafar faz falta, claro. Mas dizer todas as boas notas da escola ou quanto recebem de ordenado, talvez nem por isso. Bem, hoje em dia, só se for para denunciar os trabalhos precários.

- Ou só ver os defeitos dos filhos...

- Ah, pois, isso ainda é pior.

- Mas eu acho importante os pais gostarem de falar dos filhos. Ainda que me pareça que são mais as mulheres que o fazem...

- Sim, sim. Eu concordo. É importante falar dos filhos. Saber falar dos filhos. Saber escolher com quem se fala dos filhos. Os filhos como um bem precioso que deve ser estimado e partilhado. E falar deles ao nível dos seus pares. Como seres humanos fruto da beleza da existência coletiva.

- É verdade. E não ter medo de os elogiar. Eu acho os meus excelentes seres humanos. Muitos generosos e afáveis. Muito sociáveis e cooperantes. Sofrem um pouco quando os outros se distanciam.

- E no seio familiar, quando defendem mais a mãe ou mais o pai em determinada circunstância, não significa que gostem mais de um do que de outro. Às vezes é complicado para eles participarem na relação conjugal dos pais. Mas eles também fazem parte do núcleo. Podem errar ou serem por outrém induzidos em erro. Não há famílias perfeitas. Há famílias que lutam pelo seu projeto conjunto e estão atentas; outras que se distraem e depois perdem (alguns) laços.

- E bom falar dos filhos. Eu acho que é bom ter filhos. Mais: é bom olharmos para todos os jovens como se fossem nossos filhos. Eu adoro os meus filhos. Tenho muitos projetos, mas eles são e serão o meu projeto nº 1. Sem facilitismos contraproducentes.

- Claro! Amá-los. Ensiná-los. E dar-lhes espaço para eles serem eles próprios. Para crescerem ao vosso lado e integrados na comunidade. Tenho de ir, amigo.






quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Alentejo falado

- Dá-me uma gotinha de água, por favor.

- Claro. De qual? Da fonte ou do garrafão?

- Dessa que eu oiço correr...

- Esta está um bocado escassa...

- Entre pedras e pedrinhas, alguma gota há-de haver.

- Hum...?

- Alguma gota há-de haver. Quero molhar a garganta. 

- Sim, pois, devemos beber muita água.

- Quero cantar como a rola, sabes? Quero cantar como a rola. Como a rola ninguém canta.

- Ora aqui a tens. Podes agora cantar um pouco para mim?

- Sim.. Ontem fui à fonte beber água e depois fui ao rio para te falar. Nem na fonte, nem no rio, nunca te pude encontrar.

- 😳