segunda-feira, 9 de setembro de 2013

viajar nas linhas do nosso corpo

sou um espelho de quem me vejo.

sou como quem viaja com andas
empoleirada num corpo solto
médio claro vagão de carne
de vigas firmes articuladas.

sustentar-me-ão bons pensamentos?

algo distante a focagem nas ervas rasteiras
e perto das nuvens solitárias que se desenham
na cúpula esbranquiçada da abóbada
luminosa que acolhe aviões de penas.

há um ser sem cor ou bem pardo
que viaja comigo com linhas meio curvas
deste andar desempenado e ideias redondas
que ora me persegue  ora se adianta
na caminhada crespuscular até onde moro.

não me oiço a voar  ou em sereno planar
apenas a calcorrear chocalhando massas
e líquidos viscosos que me lubrificam
rente ao verde bordejante do caminho.

vejo em mim um pouco de ave naquele pássaro
qual planalto tibetano onde se despede da frieza
e vai em busca das cores púrpuras exóticas.

vejo alguém maior que me segura a vontade
e anima nas linhas ténues do nosso corpo
nos abraça no além tempo vigente 
deixa-me desenhar os traços do meu
encanto e me abre a janela do olhar.

é a melodia vigorosa da eterna criação
humana respiração em gestos borboletados
inventados e amorosamente repetidos.

                                                         Rosa Maria Duarte
                                                Aldeia da Justa, 8 de setembro de 2013


 

domingo, 8 de setembro de 2013

votos de bom regresso

vou ao fundo de um canteiro
e cheiro o poder das raízes
no tronco do meu ser
pequenos grandes bichos
da terra escura sangue
saúdam-me com o mexer
de asas negras corvo
e mostram-me o segredo
húmus dos torrões sementeiros
molhados turbulentos de
tanto viver.

venho de fundo do canteiro
ddoroso centro telúrico do nascimento
ensopada de existência agreste
ocres sonoros rumorejantes
de grandiosas insignificâncias
minúsculas ocultas terrenas
que me soam em melodias
chilreantes agora mais claras
quando me ergo e abro
o peito a cantar o fado
das horas mais próximas
de mais um dia no claroscuro
da vida matizada de
silêncios sinfónicos
do acontecer.

Mais um regresso ao
fundo do ciclo concertino.

                              Quinta da Atalaia, 7 de setembro/2013
                                              Rosa Maria





domingo, 1 de setembro de 2013

o fado

  

   O fado é sentimento exaltado, poesia vivida e cultura perpetuada nos dedos de quem o toca.



 

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

homenagem a urbano tavares rodrigues

                                        Texto publicado no jornal online Setúbal na Rede

http://www.setubalnarede.pt/content/index.php?action=articlesDetailFo&rec=20165

UM EXCELENTE PROFESSOR E ESCRITOR 

Ser professor não é apenas um simples estatuto: é uma condição intrinsecamente existencial.

Quem se torna professor, é-o para toda a vida. Mesmo depois de aposentado e dispensado do cumprimento do horário diário de mais de 35/40 horas semanais. Pura e simplesmente não as contabiliza. Gosta de ensinar e de aprender. A tempo inteiro. Até morrer. É um trabalho discreto, mas grandioso pela semente que deixa e pelo exemplo que inevitavelmente perdura.

E há excelentes professores. Urbano Tavares Rodrigues foi um deles. Que nunca se confinou ao espaço da sala de aula. Como qualquer assumido professor.

E para aqueles que, como eu, não estavam em Lisboa nos dias 9 e 10 de agosto, e não puderam participar na última homenagem a este estimado professor e escritor, as desculpas e os pêsames devidos, a toda a família e em particular à sua filha Isabel. Pudemos, ainda assim, comprazer-nos com as inúmeras notícias dos seus muitos amigos que somaram e continuam a reforçar um interminável adeus deveras sentido e merecido. Um adeus até sempre.

Não obstante ter sido este dia o derradeiro encontro com o notável homem de Causas, que Urbano foi, a verdade é que quem pôde fez destes últimos meses o tempo de qualidade de encontro e despedida com a sua pessoa e também de conversa privilegiada sobre a sua obra.

Na qualidade de ex-aluna da FLL e atual professora, é com muito orgulho que penso no trabalho responsável e dedicado dos profissionais do ensino, quantos formados nas aulas do Professor Urbano Tavares Rodrigues.

Por mais exigente e insaciável que o dia-a-dia se afigure a qualquer educador, e o faça por vezes duvidar das suas reais aptidões, esta é uma inquestionável atividade apaixonante, para quem naturalmente por ela sente vocação, e que proporciona o desenvolvimento do espírito humanista, nas suas múltiplas vivências, desafia para as linguagens artísticas e desperta a séria consciência social.

Foi mais ou menos assim o testemunho pessoal que tive do Professor Tavares Rodrigues. A título de o entrevistar, em abril deste ano, para o meu trabalho final de investigação, pude, desse modo, conhecer um pouco melhor o Urbano dos nossos dias. E percebi que ao longo da sua vida bem preenchida, a tarefa por excelência de entre as tantas a que se dedicara, fora a de professor. Disse-o com vontade espontânea e uma comoção desvelada.

Aquela entrevista foi, para mim, mais do que uma boa entrevista: foi um excelente testemunho de vida. E aos 89 anos demonstrou a sua lucidez e memória invejáveis, uma eloquência sobejamente exercitada e a mesma amizade sem reservas. Conversámos durante uma hora…e ainda me apresentou alguns quadros e fotos de família.

Foi uma vida oferecida ao ensino público, com contributos de grande valor, uma participação cívica e política sempre ativas e sempre pronto a partilhar as suas vivências pelo diálogo, pela escrita, pela pintura, pela poesia, na observação jornalística e literária da sociedade portuguesa e do mundo atual. Mesmo com as suas capacidades físicas debilitadas, ciente da ferocidade d’ A Imensa Boca dessa Angústia que conta no último livro publicado em vida, a bandeira desfraldada foi a mesma: a da beleza de respirar cada momento.

Num misto de insatisfação e de comprazimento, o professor agradeceu cada experiência, tentou acompanhar o seu tempo no progresso e avanços das novas tecnologias, mas nunca dispensou o olhar ao vivo e o calor humano da voz genuína do sentimento.

Claro que falámos da conjuntura atual, evitando saudosismos. Afinal, a liberdade não tem amarras no tempo, nem prazos de validade. E também das mentalidades, no seu melhor e no seu pior… dos professores que continuam a sua diáspora pelo árduo espaço de reconhecimento.

Um exemplo de um excelente professor e escritor: Urbano Tavares Rodrigues.

Um espelho de gentileza e de afirmação longeva nos diferentes compassos que uma intensa vida exige.
                                                                           Lisboa, 11 de agosto de 2013
                                                                                     Rosa Duarte
 

 

domingo, 4 de agosto de 2013

Boas férias, se for o caso.


Meus queridos visitantes,

 

Obrigado pela vossa presença virtual ao longo destes meses por tão modesto refúgio de ideias e sentimentos.

 

Quero desejar-vos bom descanso estival. Boas contemplações marítimas ou serranas. De extensas planícies alentejanas. Ou veraneios citadinos, de boa comida e frescas esplanadas.

 

Deem bons mergulhos. Façam boas leituras. Desenvolvam melhores conversas. Com muita poesia e alguma música.

 

E não se esqueçam: ouçam e cantem um fadinho de vez em quando!

 

Grande abraço solarengo.

 

Rosa Maria (a fadista)

4 de agosto/2013