sábado, 4 de fevereiro de 2017

A anedota da Anne Bota

Uma conversa de rotina entre um casal apaixonado e ciumento:

- Querido, porque é que continuas a fazer caretas nas minhas costas quando eu estou a falar com as pessoas?

- Fofinha, isso é impressão tua. É apenas o meu ar de enamoramento.







sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Pensamento 'à la minute'




Não há muro ou vedação que separe o Homem do seu irmão.

Fronteiras são limites (ou muros)?

                 

Desde la frontera
          
             Sobre o conceito de fronteira, José Luis Sampedro, conceituado professor, economista e escritor catalão, afirmou que há fronteiras de todas as classes: geográficas, históricas, biológicas, sociais, psicológicas, artísticas…
                  E passou à distinção entre fronteira e limite.
               O cabo «Finis Terrae» (do latim: fim da terra) para Sampedro não é um limite, mas uma fronteira, porque não é nenhum final de meta para o Homem. E para ele, em frente do oceano, os olhos e o pensamento vão mais longe, superando a costa. O mar não é um confim nem uma barreira, mas a maior porta para a liberdade.

Mis fronteras son todas trascendibles, como lo es la membrana de la célula, sin cuya permeabilidade no sería posible la vida, que es dar y recibir, intercambio, cruce de barreras. Y más aun que trascendible la frontera es provocadora, alzándose como un reto, amorosa invitación a ser franqueada, a ser poseída, a entregarse para darnos con su vencimiento nuestra superación: ese es el encanto profundo del vivir fronteirizo. Encanto compuesto de ambivalencia, de ambigüedad – no son lo mismo -, de interpenetración, de vivir a la vez aquí y allá sin borrar diferencias. Más allá nos tienta lo otro, lo que nos tenemos: nos lo canta y nos lo promete la frontera. (pp. 16/7).

                 Sampedro distinguiu os traços comuns das pessoas fronteiriças das que vivem nos centros.
               Na sua opinião, os dos centros vivem encastelados, porque erguem muralhas e fecham as portas para criar limites ao seu território. Quando ultrapassam as muralhas, é para conquistar o espaço do outro. “Destruyendo para conservar.” Para estes, a fronteira não é um convite, mas uma ameaça. Os que estão fora portas são sempre inimigos. E como não procuram aproximar-se do inimigo, a sua vida está ancorada no interior das muralhas, onde erguem palácios, templos, normas, dogmas. Preferem a segurança do sedentarismo e das normas, do que a aventura do movimento e da liberdade.
               No seguimento da sua reflexão, Luis Sampedro considerou que são dois estilos de vida diferentes: o fronteiriço e o central.
               O fronteiriço é ambivalente e ambíguo, o que faz dele um ser mais dinâmico, aberto à novidade e potencial vanguardista.
                 Quem vive no centro é resistente às mudanças, e defende as suas leis e normas de forma tão rigorosa que pode chegar a extremos do dogma, da exigência ortodoxa e, mesmo, da tirania.
                   Os fronteiriços são revolucionários.
               Contudo, tão vital é a mudança como a permanência. Tão lícita a atitude fronteiriça como a central. Concluiu esta distinção dizendo que os dois estilos podem ser complementares.
                Mas declarou-se fronteiriço, porque aberto à inovação e ao progresso. “[…] como cantó el gran fronteirizo Pablo Neruda: «no es hacia abajo ni hacia atrás la vida.»” (p. 20)
           Os próprios contrabandistas que Sampedro conheceu eram alegres, atentos, cordiais e saudavelmente pícaros. Não viviam enganados, porque tinham consciência que o contrabando apenas é delito aos olhos da lei do serviço da extorsão fiscal. Para um defensor do mercado livre, o contrabando devolve a liberdade de oferta que o Estado retirou.
                  À luz da fronteira aduaneira da sua vida quando se dedicou a estudar economia, a queda do muro de Berlim servia de bom exemplo da diferença entre a atitude fronteiriça e a atitude central. Estes últimos, encararam-no como o fracasso do comunismo e a vitória da verdade do capitalismo. E o facto é que não há liberdade de eleger no nosso mercado, porque sem dinheiro não é possível eleger nada.
               A ciência económica evoluiu muito. Mas em que direção, perguntou-se. Sampedro deu a entender que nem o liberalismo nem o comunismo evoluíram. Então é crucial a reforma dos pressupostos básicos da economia.

Quienes creemos que la humanidad evoluciona en espiral, repitiendo su paso por los mismos ejes, aunque a distancias crecientes del centro, recordamos que así cayeron antes todos los imperios. (p. 27)

               A nossa civilização, segundo o mesmo autor, rompeu com o sagrado e elevou aos seus altares o dinheiro e o materialismo. Subestima-se o sentimento. Há muita ciência e pouca sabedoria. Sampedro alertou, contudo, para os riscos nessa luta contra os desajustamentos e desequilíbrios sociais, do uso dos extremismos que só os agravam.
               Se o amor não é sagrado, como é que vai ser a morte, interrogou-se.

Pues la muerte no es lo contrario del vivir, sino el horizonte que lo confirma y contra el cual gana la existencia en intensidad […]. Si conscientemente dejamos a la muerte que nos acompañe, hace milagroso cada instante, retoca voluptuosamente el irrecuperable pasado, hace incierto el futuro y así más deseable. No es enemiga, sino amiga, quien nos salva de la decrepitud; pero esta civilización no lo entiende y escamotea la presencia de la muerte en nuestro escenario social. (p. 31)

Rosa Maria Duarte, O Canto do Cisne no Retorno do Eu ao Ato da Escrita, 2015.


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

A anedota de Anne Bota

Junto a um restaurante, a mulher entra, enquanto o marido vai ao multibanco mais próximo levantar dinheiro. Quando ele chega, já a senhora está sentada a uma mesa.

- Já mandaste vir? - pergunta-lhe.
- Já começas? Hoje estou muito bem disposta. Não quero mandar vir com ninguém!




Pensamento 'à la minute'.



Pensar em liberdade é deixar a ideia sonhar.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Autobiografia (página 19)


Quando eu era pequenina, os passeios que ladeavam a rua de Alcântara eram muitos estreitinhos, sobretudo junto ao largo. Então, sempre que se ouvia uma travagem brusca ou uma sirene de ambulância, a minha mãe estremecia toda. 
Um dia um carro fez marcha atrás e deitou-me ao chão. Fiquei com a sola do sapato preso num dos pneus do carro. Foi um belo de um susto!
As crianças que vivem nas grandes cidades requerem uma proteção maior. Sobretudo nas zonas onde as vias pedonais não são uma prioridade. Então é o dilema entre a vigilância e a autonomia.
A nossa autonomia resumia-se aos nossos trajetos muito essenciais.
O nosso pai passava muito tempo em viagem e a minha mãe não podia ir à escola acompanhar a nossa vida escolar. Os projetos de integração das famílias nas escolas também não eram o que são hoje...
Mas nós sentíamos um pouco de pena de não podermos mostrar à nossa mãe certos trabalhos que fazíamos e não podiam sair da escola.
Todavia, os irmãos mais velhos tentavam fazer esse papel... Eu também tentei, quando passei a ser das mais crescidas. Eu até gostava de cuidar dos irmãos mais novos. 
Mas o que nós gostávamos mais, mesmo, era de brincar na rua. Havia sempre muita criançada a fazer jogos na rua. 
- Mãe, podemos ir para a rua?
- Vocês já não têm idade para brincar. Parece mal.
Tínhamos que crescer depressa. Tínhamos que ajudar, fazer recados. Fazer os deveres.
Íamos então fazer os recados. Ainda que empurrássemos essa tarefa uns para os outros. E quem ia, às vezes, ficava com o troco para comprar guloseimas. Era uma boa motivação.
Então comecei a ir também à praça da fruta e do peixe que era na avenida de Ceuta. Comprava bom peixe fresquinho. O chão era de cimento, mal amanhado, todo irregular e fazia poças de água a cheirar a peixe. Faziam-se autênticas gincanas e mesmo assim, de verão, com sandálias, molhávamos e perfumávamos os pés com aquela água turva.
E foi assim que eu fui conhecendo os diferentes tipos de peixe. Os preços. As varinas. As bancadas.
Um dia, a caminho da praça, a minha mãe encontrou a minha avó que morava ali muito perto, no beco do Sabugueiro. Era uma senhora que bebia muito café de saco.
Nesse dia estavam a conversar, penso que com mais alguém, e de repente, a minha avó materno tombou para o lado. Seguraram-na. Veio a saber-se que foi um AVC. Dizia-se uma trombose. Nunca mais foi a mesma: deixou de ser a mulher enérgica, trabalhadora e interventiva. Ficou paralisada do lado direito. Ainda viveu mais alguns anos depois desse episódio. Ainda fazia muita companhia ao meu avó.







A anedota de Anne Bota


Numa viagem pela cidade de Lisboa:

- Desculpe, senhor, mas a carteira que acabou de tirar do meu bolso é minha.
- Ah, pois, tem toda a razão. Está vazia. Enganei-me no bolso.