quinta-feira, 16 de novembro de 2017

O nosso galo é fadista.

Que galo! Todo armado aos cucos.

Digam lá que a sua atitude não é de fadista.

Umas unhas bem compridas e sempre aguçadas.

Mas o seu melhor está na goela, pois então.

É fadista de alma e coração do mundo inteiro.

É um galo cantor de orgulho na raça lusitana.

Este aqui é apenas uma humilde representação.

Foi disputado pelo meu pai e pelo meu tio, irmão

numa feira de província, conta a minha mãe.

Desde muito menina que o conheço, tão assim

de louça pintado vermelho, amarelo e azulão.

Tinha lugar cativo no móvel da sala dos meus pais.

Por força das circunstâncias, passou às minhas mãos.

Na sala empoleirado na estante revestida de livros.

Canta todos os dias de madrugada e ainda pisca o olho.

É um bom malandro. É fadista. Até vos vou contar

um segredo: foi ele que me desafiou para o fado há anos.

Mas não o castiguem, coitado. Já nem se pode mexer.

Nem sei qual é a idade da sua graça. Pergunto à mãe.

Hoje que faria 96 anos o seu tutor, meu pai, marinheiro fadista.

Não pensem muito mal de mim, fadista de alma e coração.


Rosa Maria Duarte



Um galo que pode ser de Barcelos
Rosa Maria Duarte
Óleo s/tela
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quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Temos que indemnizar as crianças que sofrem.

Como vamos indemnizar tantas crianças que sofrem

que vivem à espera de um momento para reclamar

um bocadinho de atenção, um naco de pão, um carro

de mão e recolherem a paciência e a dura preocupação

no olhar da sua mãe ou de alguém com certa comoção.


A única indemnização é o amor na dádiva da educação.


É QUE VOU MESMO DISPARAR?!

Desculpem, meus senhores

dentro e fora do meu país.

Não quero atingir ninguém.

Peço desculpa se o fizer. Sorry.

Não tenho licença de porte d'arma.

Não tenho licença para matar.

Não tenho licença para falar.

Mas vou disparar na mesma.

Disparo palavras, que é o que tenho à mão.

Talvez acerte nalguma vítima mais próxima.

Talvez acerte em mim que sou a vítima ideal.

Mas é que já não aguento mais. Ora bolas!

Raios partam todas armas, bombas e torpedos

mais os discursos gaseificados de manipulação.

Primo o gatilho: PUM! PUM! a todo o armamento.

Sou CONTRA o uso das armas. Só se forem o alfabeto

o fado, a poesia, o teatro, o desenho ou a comunhão.


Rosa Maria Duarte






terça-feira, 14 de novembro de 2017

Visitas as casas do teu ser. És tu quando te olhas. E és também nós.

Quantas vezes visitas as casas que, sabes, moram dentro de ti.

Não tantas quantas deverias? Também pouco as dos outros?

Paciência. Visitas-te. Cada vez conta. Conta-me. Estás bem?

Certo. Podes, como qualquer um, fazer melhor. Não te fiques.

O que fazes? Olhas-te. Vejo que olhas as tuas mãos. Tens uma pele...

É do frio. Talvez. Hidrata-te, por favor. Besunta-te de vida.

Começas a sentir-te dona da tua pele. As mãos são idiomas.

Sabem falar. As unhas, não precisas pintar. Talvez se beberes

mais cor. Mais cor de rosa. Estão curtinhas, pois. Têm perfume.

Estás sentada, já sei. Conta. Um olhar breve. És breviário.

Umas pernas bonitas? As calças é que são à polícia. Não precisas de saltos

para seres elegante e mulher. Não te compares. Não és única?

Aceita a tua pessoal beleza. És muito comovente. Qual rosto?

Vê-te ao espelho. Não gostas de reflexo? Vê-te na luz da tua pele.

Estás brilhante. Apanhaste sol? Não demais, por favor. Esse olhar

tão curioso e tão calmo parece que já viu tanto! Nem por isso?!

Claro que tu é que sabes. Ainda não nasceu quem que já viu tudo.

Nem o Cristo? Pois. Eu sei que não blasfemas, eu sei. Esses lábios

semi-rosados lisos juntos calados olham como olhos que falam.

Olhares repórteres deste canal sem «batuta» a deixarem-se levar

para a agitação de outros rostos que passam por baixo da tua janela.

Escancaras. Queres ver no escuro. Sobressais nos rostos apressados

indagadores nas pedras dessa tua casa. Vou-me? Saudades, amiga.


Já sei que vais a seguir telefonar para ajudar quem sofre em Portugal.


Rosa Maria Duarte




Aqui há linhas solidárias


Não telefonem para este simples blogue que não tem número.

Não enviem sms ou emoji porque aqui só se aceitam momentos.

Mas estas linhas aqui escritas de repente querem ser solidárias

com todas as vítimas dos incêndios, dos furacões, dos terramotos,

da seca extrema, da guerra, do terrorismo, da pobreza, da dor,

do desamor, da incompreensão, de todos os sentimentos baixos

menores humanos. De todos os erros humanos. De inconsciências 

várias. Contaminações. Manipulações. Corrupções. Teimosias.

Cegueiras físicas, mentais, espirituais, políticas, ambientais.

Pobres linhas virtuais, não menos existidas, que nasceram agora

neste ecrã para se dirigirem a todos nós, às boas pessoas, 

às más pessoas, as pessoas assim-assim. E se ninguém é mau,

não nasce mau, então todos somos a solidariedade para sermos.

Às vezes, a própria solidariedade luta contra atos seus de discriminação.

Pensamentos há de discriminação boa. E se calhar, é possível. 

Aquela que quer dar prioridade às crianças, aos velhos, doentes,

aos mais vulneráveis, aos marginalizados, às minorias diversas.

Mas todos, todos, mesmos todos precisamos de ajuda. A vida.

Mas a solidariedade tem um fraco pelos jovens crianças-adultos

e adolescentes que precisam de um futuro digno e sempre melhor.

E ainda há quem sofra tanto! Porquê? Uma explicação é a kármica.

Não nos venham com o karma. Se calhar... mudemo-lhes o dito.

Um bom exemplo é o que é preciso. Somos melhor a parlaaar

(e a escreveeeer) do que a fazer, é bem certo. O quê? É preciso

ajudar a aprender e a ensinar. Nesta escola tão dotada!  E então?

O que é que é isto da solidariedade?! É bom. Só não é fantástico...

porque ajudar a ajudar é dar condições humanas à humanidade

para ser (mais) feliz e realizada e sincera e verdadeira e solidária.


Solidariedade que não consegue ser solidária só com o seu Ego.

Solidariedade quer ser mais do que uma ideia bonita, uma intenção,

uma imagem, uma vontade. Quer ser um ato individual somado 

a muitos atos individuais, movidos por uma força coletiva e sã.


Linhas solidárias sem números. Nem fax. Nem facebook. Letras.

Letras de saudação a todos os que fazem por pensar e por agir.

Letras de saudação a todos os que têm medo de se sentirem bem

aqui ali acolá cheios de equipamento potente de intenções e apelos

à vivência e à liberdade e à coragem e à alegria de sermos coração

e pensamentos atuantes e criação, sonhadores de um dia melhor.


Rosa Maria Duarte





segunda-feira, 13 de novembro de 2017

A anedota da Anne Bota

- Queres ir ao meu jantar de despedida?

- Vais viajar?

- Não. Vou viver para o campo.

- A sério? Agora com tantos incêndios florestais, não sei se é boa ideia.

- Com tanta poluição na cidade, também não é boa ideia viver cá. Queres alinhar no jantar?

- Se puder, claro que sim. Calculo que vai muita gente, já sei como és. É aonde?

- É no Panteão Nacional.

- 😲???


Anedota da Anne Bota

- Onde vais com esse garrafão de plástico?

- Vou ali à fonte buscar água. Ainda deita água, não deita?

- Acho que sim... Porque é que não levas a tua roupa para lavar? Há lá um tanque antigo.

- É pá, isso não posso. Tenho que entrar às 9 horas no escritório.