quarta-feira, 18 de março de 2015

e além disso, mulher, tem outra coisa: minha mãe não dorme enquanto eu não chegar...


Não sou filha única, mas tenho o meu mundo para inventar. Não posso ficar, não posso ficar, nem mais um minuto sem você. Estou p'rá aqui a cantar, a pintar, a escrever. Moro na Margem Sul e minha família não descansa enquanto eu não acabar.

Sou uma quase-artista a meio tempo, cabeça nas nuvens, peixinhos contorcionistas no buxo, pés rasantes na terra e um fogo que arde no coração que é mais grito do que canção.

Pela APAV.



 Título: Pela APAV
Colagens, carvão, cera e pastel.
Rosa Maria Duarte (18 de março/2015)

terça-feira, 17 de março de 2015

o silêncio agasalhado

 
 
Na esquina da vida, avistei luminoso o céu do meu bairro.
 

A Elis perguntou-me pelo bar do Veloso.
Não vai antes um fadinho?

Aqui há fado?
Se há...!
 
Vai um fadinho.

De janela virada aos manjericos, mergulhei o olhar.
 

Os gemidos chamavam.

 Num banquinho enegrecido da tasca, bebi na aragem do canto.

Era um mar de versos que deslizavam salpicos de vento e fado.


Quais vagas de melodia em êxtases de cor de mel.
 Velas traziam um misto de sentimento e olhar intenso.
As mesas eram matizes de poesia.

Ao som gradativo final, já era o langor a entorpecer o silvar da saudade.
O silêncio foi o agasalho fadista do regresso.

                                                                                         17 de março de 2015
                                                                                          Rosa Maria Duarte

«Setúbal na Rede»: sempre a inovar!

Rosa Duarte

Professora e mestre em estudos portugueses

Rosa Maria da Silva Candeias Tavares Duarte nasceu em Alcântara. É investigadora do CHAM e professora de Português. É mestre em Estudos Portugueses e desde 2010 doutoranda na FCSH em Línguas, Literaturas e Culturas, na área de Estudos Literários Comparados. Fundou dois jornais escolares. É conhecida no meio fadista como Rosa Maria Duarte. Tem dois cd's editados: “Fado Que Cura” e “Fado Firmado”. O seu blogue pessoal é “A Batuta do Olhar”. É casada e tem dois filhos.http://setubalnarede.pt/canal/acabar-de-vez-com-os-adjetivos

domingo, 15 de março de 2015

a casa do sol

A Casa do Sol

Quando o sol recolhe no horizonte, vai para casa dormir. Bem merece!

Mas a sua luz é tão intensa que as paredes da noite não conseguem esconder todos os raios, sobretudo os que se distendem mais pelo sono dentro.

Eu também não sabia, mas o sol atualmente já ressona. É uma estrela adulta que não modera o seu gosto pela vida e respira a céu aberto, com ruido e alguma deselegância.

As outras estrelas mais novas riem-se ao sentir-lhe os movimentos luminosos desajeitados a tais distâncias que, mesmo de portas vedadas, faz com que a lua esteja sempre de olho nas nesgas de sol.

Por isso é que a noite nunca fica de todo escura. Senhora romântica como ela é, o seu manto é feito de reentrâncias para deixar a luz que chega dos lados do poente da casa do sol se una delicadamente à luz feminina da lua. Até ser dia.




título: A Casa do Sol
Carvão, pastel, cera
rosa maria Duarte
 

sexta-feira, 13 de março de 2015

Como é bom conversar a cantar Lisboa!


Ser ou não ser?

Eis a velha questão shakesperiana sempre pertinente.

Somos seres insatisfeitos, quais vasos comunicantes, cantantes, quando não diletantes, certo?

Talvez cada vez mais urbanos e telecomunicativos.

Continuamos a gostar, ainda assim, da boa cavaqueira tête a tête (malgrado os fatelas sempiternos…)

Mesmo quando estamos cansados de conversar, continuamos a falar na nossa cabeça.

No silêncio desejado, as palavras libertam-se e escrevem-se sozinhas, dentro e fora do seu pensador. Saltam do olhar, de um gesto, do telemóvel, dum papel, do computador, dum tronco de árvore, do wc…

Não há ruído que corte a raiz ao pensamento. Nem a careta mais idiota e cobarde, dissimulada nas costas alheias, consegue evitar um inevitável e quiçá bom diálogo.

Desde os tempos imemoriais que vão aparecendo uns seres humanos convencidos que podem impor aos outros a sua tristeza. Julgar e amordaçar.

Propósitos risíveis de pseudojustiça…

Condicionar a comunicação… Se, na realidade, nunca tal foi deveras conseguido, muito menos alguma vez será nesta era das (tele)comunicações.

Qual será a qualidade de interação dos autoeleitos carrascos da comunicação controlada/vigiada?

Qual será a qualidade ética dos seus pensamentos? Qual será a saúde emotiva dos seus dias repetidos?

Se somos o que pensamos, não há como uma boa ecologia mental.

É que o medo estraga a liberdade.

E ser ladrão da alegria não compensa o crime; até a própria adrenalina seca. O que é uma seca.
 
Desligar a música não dá, porque é imortal e imordaçável. No coração humano há uma saborosa tertúlia à mesa do sentimento à espera de companhia...

Será que ainda se pode roubar a voz à vontade de cantar?

Pobre gente coitada! Desafina o tom do próprio diapasão divino.

Roubar asfixia pela frustração o seu próprio mérito. Os ladrões nunca poderão ser pedagogos.
 
Assim como assim, conversar sempre ajuda a aguentar e a cantar Lisboa. E que grandes fadistagens!
                                                                             Lisboa, 13 de março de 2015
                                                                                   Rosa Maria Duarte
título: pormenor de Lisboa
desenho a lápis de cor, de cera e pastel
rosa maria duarte

Casava contigo, se pudesse...






homenagem a Lisboa





quarta-feira, 11 de março de 2015