domingo, 4 de dezembro de 2016

Chuva oblíqua









 Atravessa esta janela o meu olhar dum sonho infinito
E a tonalidade da natureza é ténue de tons de pavio
Que largam o corpo adormecido na sombra da casa
A janela à chuva intensa daquelas árvores
despidas...
O canto que sonho é rouco imerso nas águas
da paisagem desfocada pela chuva batida a vento
Mas o meu espírito olha o sol para lá do horizonte
E as cores atravessam os vidros embaciados das janelas.
Solto em grande suspiro o abandono duplo do corpo
Chuva oblíqua
Rosa Maria Duarte
Rosa Maria Duarte
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E vejo-me do outro lado da janela, com nitidez
Que parece me acordar no exterior chuvoso da casa
E os carros passam a derrapar nos lençóis frios
da minha cama inundada de água da chuva oblíqua
Que entra pelas frinchas da janela velha e antiga
Desta casa transparente de recordações de alguém
Que parecem minhas ou quase de quem eu sou
Não sei quem me adormece...
Neste cair compassado de chuva teimosa e fria
Num renque de árvores, estrada a entrar a porta
desta casa com janela fechada, mas tão molhada
De um sonho que não me acordo porque entra
de mansinho e fica dentro de mim.

Ilumina-se a sala onde a janela esconde o dia
riscado de chuva marítima da costa atlântica
que sacode a luz baixa dos livros sobre a mesa
e discursam sobre a chuva a bater nas vidraças
num dia cinzento escuro sem formas definidas
mas tons de cor tremeluzentes nos vidros da janela.
Um esplendor de altar-mor de domingo missal
em oração solene de fiéis como eu, sentida,
que se ajoelham num dia quase triste de chuva
benzida pelo amor do padre a cantar, feliz.
A casa é um carro com lugares sentados
para pensar, cantar e orar
de luzes apagadas e janela fechada.

Que trompete choroso se eleva daqui!
O silêncio do quarto em que durmo
leva-me até ao sofá onde me vejo também
de olhos com pestanas tremibundas a brincar
com o sono em sonhos de grandes chuvas
que batem oblíquas na janela de mim
e teimam em acordar-me.

A maestrina sacode a batuta do olhar
e faz romper uma serenata à chuva
perto do roupeiro do meu quarto cheio de sonhos
grandes, pequenos, leves, pesados, tristes
e oblíquos, cheios de chuva, de sol, de nuvens
cinzentas escuras que querem entrar os vidros
e rebentar em cima do meu corpo-barco
que flutua em lençóis de água no jardim
da casa em que me habito.
Cordas dedilhadas fazem-me gemer a cantar
e acordo a cantar, como se fosse pássaro
fechado num quarto sem chuva por dentro
e janela riscada de vento e sentimento.

4-12-2016
Rosa Maria Duarte



















sábado, 3 de dezembro de 2016

Hoje choveu muito.


 O dia ainda não acabou, mas o sol já se deitou. Hoje choveu muito.

 A chuva esconde-nos. Mas prepara-nos o olhar. E reparamos melhor em cada dia com um rosto diferente. Hoje o dia nasceu ainda mais colorido de amarelo nas traseiras da minha casa.

As palavras desenham. As cores falam. Os sons elevam.

  Hoje celebro o dia em que dormi como nunca antes depois de ver o rosto do meu primeiro bebé.

Parabéns, querido Daniel.


Parabéns, meu filho, pelos teus bonitos 30 anos de existência. A tua beleza interior é tão grande que não consegue escapar ao mais distraído olhar...

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

crónica de opinião AS ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS DEVEM SER MESMO UMA ‘PRIORIDADE URGENTE’?!

AS ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS DEVEM SER MESMO UMA ‘PRIORIDADE URGENTE’?!

A que é que se comprometeram os governos dos países que assinaram o acordo de Paris de 2015?
A reduzir o aquecimento global na nossa casa comum, o planeta Terra. Querem, portanto, evitar prejuízos, como aqueles que volta e meia acontecem na produção dos alimentos, e já para não falar das catástrofes.
Pois, mas porque é que todos parecem preocupados com isso e nem todos olham este sinal de alerta ambiental com a mesma urgência (ou até mesmo igual seriedade)?
Porque isso implica disponibilização de verbas (sempre o vil metal a atrapalhar) que são necessárias para assegurar que o aumento da temperatura média global fique 2ºC abaixo dos níveis pré-industriais, até um dia reduzir para o ideal 1,5ºC.
Porque também é preciso investir nos métodos inovadores que permitem baixar as emissões de gases do efeito de estufa. Claro que não se pretende acabar com o fenómeno natural de estufa que sempre aconteceu, mas evitar o aumento exponencial desse efeito que é provocado pelo excesso de saída dos gases para a atmosfera, como as substâncias em contexto fabril por exemplo. Há que reduzir a emissão que potencializa artificialmente esse fenómeno e provoca mudanças climáticas com altos custos.
São alterações advenientes do inevitável progresso industrial humano que têm gerado problemas económicos, doenças e pobreza; consequências que provêm de causas que nem sempre são apuradas e/ou nem interessam apurar.
O Tejo, por exemplo, sofre ações humanas ao longo do seu percurso que o fragilizam e à chegada à fronteira portuguesa já vem debilitado. É visível nalguns troços da água deste rio o seu estado impróprio por causa de baixos caudais e descargas poluentes. No ano passado, a Quercus alertou para o grau de poluição do Tejo, sendo considerado um dos piores factos ambientais. As autoridades do Ambiente receberam 38 denúncias por descargas ilegais e unicamente uma fábrica teve atividade suspensa porque reincidiu na dita prevaricação.
A preocupação ambiental não é exclusiva de uma faixa etária (embora, diga-se de abono à verdade, que os jovens têm sido os principais panfletários desta causa ambiental), nem é exclusiva de uma camada social, nem mesmo de uma instituição ou continente geográfico. Mas há zonas do planeta mais castigadas (basta ouvir os noticiários). A solidariedade ainda é um valor universal a ter em conta.
Todavia, é uma questão de tempo. E o sofrimento causado pelos prejuízos é transversal. Só levando a sério as medidas acordadas no tratado de Paris, com compreensão das suas vantagens para tudo e para todos, concertadamente, dos seus benefícios visíveis a médio e a longo prazo, se conseguem criar fluxos financeiros consistentes para aumentar a capacidade de adaptação climática de cada região, rumo a um desenvolvimento resistente aos fatores climáticos ameaçadores.
E não vou esquecer de sublinhar o esforço de Portugal que, pequenino e pobrezinho, está entre os melhores nas políticas contra as alterações climáticas. Há que fazer melhor ainda.
                                       Rosa Maria Duarte




  

In Memoriam de todas as vítimas de desastres de aviação / em particular dos jogadores do Chapecoense

Solidariedade de Portugal para com as famílias dos jogadores do Chapecoense e todo o povo brasileiro

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

A terapia da alegria

Viver bem disposto é uma boa atitude. Que vem do nosso interior e é mais forte quando olhamos à nossa volta com serenidade.
Claro que há sempre quem, por razões que não lembram o mais pobrezinho, decide empurrar aquele que está mais a jeito para o abismo da má disposição.
O caminho do guerreiro pacífico é um caminho solitário.
Às vezes, os construtores da paz conseguem curar os outros que são tristes e gostam de ver tristeza à volta. Com um sorriso, uma piada, uma deixa engraçada...um gesto amigo...um silêncio de respeito...
É triste quando acreditamos que temos de ensinar a tristeza ao outro. Temos é de ensinar a alegria!
Tenho pena daquelas mulheres que escondem o rosto e não lhes é permitido falar com ninguém, sorrir para ninguém, mostrar contentamento no olhar... 
Na cultura ocidental, felizmente, são menos os casos em que a mulher não pode ter uma vida social normal... Coitadas daquelas mulheres que são reprimidas pela própria família!



Autobiografia (página 2)

Da esquerda para a direita: eu, o meu pai, a minha mãe,
a minha irmã, em baixo o meu irmão João.
(O fotógrafo de serviço era o meu irmão mais velho)
Há uns anos, a infância num bairro antigo de Lisboa, como o de Alcântara, era uma vivência de vizinhança. As minhas melhores amigas eram as miúdas que brincavam comigo nas traseiras da casa dos meus pais. 
Claro que eu, ainda novita, beneficiava da companhia dos irmãos mais velhos quando me autorizavam a ir brincar para a rua.
A rua era a das Fontainhas que, mesmo nessa altura, não era uma artéria principal de trânsito. Mas exigia os seus cuidados. Talvez ainda mais do que hoje, devido à atividade das fábricas nessa altura em funcionamento. Aquelas enormes camionetas do Faria, cheias de gigantes varetas de ferro que tinham na ponta um farrapo vermelho, porque ultrapassavam o próprio comprimento da caixa da camioneta.
Como é que a criançada se entretinha na rua a brincar? Com os tais jogos tradicionais que os mais velhos ensinavam: à barra, ao mata, ao elástico, à mamã dá licença, à apanhada, às escondidas, as pedrinhas, ao telefone quebrado, ao 'aqui vai o lenço, aqui fica o lenço', aos países, à batalha naval, ao aro... os rapazes não dispensavam o jogo da bola. Volta e meia passava a polícia e confiscava a bola. Muitas vezes a bola era do meu irmão mais velho, o que obrigava o meu pai a ir à esquadra. Depois eram sermões repetidos lá em casa (ainda há dias quando fui visitar a dona Amélia, única vizinha dessa altura que ainda vive lá no prédio, estivemos a recordar isso; eram os três zés da bola: o meu irmão, Zé António, o filho dela, o Zé Álvaro e o Zé Pinto).
Claro que havia também a tendência para as brincadeiras tipo mães e dos pais, a cochichar aqui e ali a dizer quem gostava mais de quem e assim vinham os primeiros namoros.
Quando entrei para a escola primária (nessa altura ainda não havia pré-primária), fiquei muito contente. Os primeiros seis anos da minha vida tinham sido sempre debaixo do teto paterno e, pela primeira vez, ausentava-me todos os dias de casa. Claro que nos primeiros meses saía sempre com a minha irmã, que ainda andava na escola da Tapada comigo. Só depois é que saiu para ir para a Ferreira Borges, como aconteceu comigo no final da 4ª classe.
Eu e os meus irmãos fomos sempre bons estudantes. Tínhamos boas notas. Gostávamos de aprender. Lá havia um ano ou outro em que havia uma distração (jogatanas, namoricos...), mas quase sempre corria bem. 
Lá no bairro o forte eram os santos populares. Havia bailaricos, manjericos. namoricos. Salto à fogueira. Ouvia-se fado e Demis Roussos.
A escola foi muito importantes para mim e para a malta nova do bairro. O contacto com o conhecimento, com certos professores, com colegas que nunca mais esquecemos. As visitas que fazíamos com a escola. Eu aprendi a nadar na piscina do pavilhão da Ajuda.
Quando era miúda, não era de muitas conversas. Observava mais do que falava. Havia alturas que só brincava no intervalo quando me perguntavam se queria; caso contrário ficava sentada, a olhar os outros. Portava-me bem na sala de aula. Acho que só levei uma ou duas vezes um «sopapo» (como ela dizia!) da minha professora, que doía porque ela tinha uma unhas pintadas muito compridas.
O 25 de abril de 1974 só se aconteceu quando eu já estava no 1º ano do ciclo preparatório. Até lá, o edifício à direita no recinto escolar ainda era só para meninas. O edifício da esquerda era só para rapazes. Havia uma rede a separar. Depois tiraram a rede quando Salazar morreu e lhe sucedeu Marcelo Caetano.
Um dia, já nessa altura, vinha a sair da escola, vi um rapazito vizinho meu a ser maltratado e fui socorrê-lo. Ele sentiu-se envergonhado, mas ficou agradecido. Hoje se o vir nem o conheço...
A Natércia era uma colega da classe da minha irmã que nos vinha chamar todas as manhãs. Ela tocava à porta sempre cedo. Subia e ficava na sala à espera. Um dia perguntou-nos que barulho era o que ouvia todos os dias lá em casa, tipo escovagem continuada. Era o nosso pai a lavar os dentes. O nosso pai gostava de se levantar todos os dias muito cedo e ficava horas na casa de banho num ritual muito próprio, de grande rigor.
Nessa altura, da minha primária, as raparigas usam pompons pendurados nas meias e xailes de enfiar na cabeça também com vários pompons nas pontas. Tive pena de não ter tido nada disso. Eu era toda ligada a coisas de miúdas. Mas ao mesmo tempo tinha o meu lado de maria-rapaz. Brincava aos índios e aos cowboys. Jogava à bola no corredor da casa dos meus pais.
Pude escolher o penteado à tijela, como se usava, mas choramingava sempre quando chegava a casa à saída da Cinderela, o cabeleireiro do bairro.
Houve uma ou outra vez que cheguei à escola sem sapatos. Estava a subir a calçada da Tapada quando ouvia gritar: - Fujam! Fujam!, e como os sapatos eram herança da minha irmã, ficavam-me largos, logo caíam-me facilmente dos pés. Nessa altura eu tinha um medo terrível dos guardas montados a cavalo.
Mas no dia 25 de abril de 1974, eu fui à escola. (pode ler-se mais no site: http://memoriasdarevolucao.pt/index.php/dias-memoria-da-revol/historias-e-memorias-da-revolucao/305-onde-e-que-eu-estava-no-25-de-abril-retrato-de-um-sentimento-em-flor-rosa-maria-duarte)
De regresso, quando cheguei à porta da rua do nº 17 estavam lá varinas a vender o Diário Popular. Nesse dia vinha na primeira página a fotografia do general Spínola em grande plano como novo presidente. Subi a correr, emocionada, as escadas até ao 2º andar e quando falei nisso lá em casa, todos olharam para mim com respeito. Tinha 10 aninhos, mas já me prendia com os assuntos dos mais velhos.