domingo, 4 de março de 2018

Vem, vamos fazer alguma poesia...

Querido, porque estás ocupado?
Não tens um minuto para mim?
E eu gostava tanto, mesmo muito
de ser mãe; não gostavas de ser pai?

Querido, deixa isso então? Por favor
esses papéis na secretaria e vamos
pensar em nós os dois na livre alegria
de sermos pais de uma sentida poesia.

Querido, eu sei, não é tarde demais
somos ainda ternos muito sentimentais 
inventivos, amantes, sonhadores, afetivos
queremos amar perdidamente a palavrinha
que nasça na minha ávida barriguinha.

Querido, deixa o ecrã e o rato, nessa pausa.
Desliga por meia-hora o mestre computador.
Abre o peito, sente a maresia, olha o longe
vamos ficar perto um do outro a sentir amor
pela poesia que vai crescendo dentro da vida
de mim de ti nós dois talvez com alguma rima.

Rosa Maria Duarte






sábado, 3 de março de 2018

Sim... Estou aqui a limpar a floresta. Agora não posso ir. Queres vir cá ter comigo?



Porque não gostas de mim IV

Normalmente as pessoas não gostam muito de mim.

Gostam mais do sol e do céu limpo. Eu não as censuro. Molho toda a gente e tudo. Sou fria. As nuvens que faço tapam o céu. A humidade estraga as casas. O mar fica enervado e galga os molhos e os portos. Os pescadores não podem ir ao mar...

Mas não fico triste. A minha chuva são lágrimas de alegria. Vejo os campos saciados e brilhantes. A terra fica mais perfumada. As ruas ficam mais lavadas. As crianças continuam a brincar porque gostam de mim. E a neve vem visitar-me muitas vezes nas serras. Diz lá que não faço espetáculos naturais lindíssimos?

Que tens que usar agasalhos e chapéus de chuva? Tem paciência. Constipas-te com mais facilidade? Tens que te recolher. Mas podes ser daquele/as que gostam de cantar à chuva... Não é bom cantar à chuva? No chuveiro, por exemplo? E tomar banho na praia ou num rio num dia de chuva? Fantástico, não? Sei que nem toda a gente aprecia. Eu sei que é uma chatice sair da água e não poder secar o corpo sem um toldo de jeito que proteja.

Mas eu sou a fonte de tudo. Sou a origem da vida. Sou grande parte de ti. Sou construtora das nuvens. Família do gelo e da neve. Sou transformista. Engravido a terra. Sou lar. Sou uma deusa para as gentes das terras secas. O ouro branco. Inspiração de tantos fados. E gosto de chover por tudo e por nada. Tenho muito espaço no mundo para chover. Às vezes zango-me um pouco com o vosso comportamento, mas logo me comovo e desato a chover. Às vezes descontroladamente. Sou muito emotiva. E gosto a sério de vocês. Não consigo evitá-lo. Olha, lá estou eu a chorar agora. Estás a ver-me? Estou agora à tua janela a cumprimentar-te.

Cada vez te faço mais falta, não é? Então sorri-me de vez em quando.

Podemos ser amigos forever? Não te pões a fugir para o Brasil quando chovo aí ao pé de ti? Eu também gosto muito do Brasil. Volta e meia estou lá. Às vezes até prego aquela partida de aparecer no Carnaval do Rio de Janeiro. Sou um bocado malandreca!

Prometes então que gostas sempre de mim? Que não praguejas quando o chapéu-de-chuva se avariar? Quando chovo de repente? Quando te beijo a boca? Sabes que sou água de chuva milenar. Não sou tratada, mas vou tratando de ser livre, autêntica e muito mineral. Digamos que sou uma atleta que nunca se cansa de chover e de correr mundo.

A verdade é que gosto muito de ser chuva. Não faço diferenças de calendário. Chovo para qualquer lugar e para qualquer povo. Queres agora uma gotinha para confecionares bem a nossa amizade?

Se és do campo, sei que gostas muito de mim. Se és poeta, gostarás sempre de mim em qualquer parte do mundo.

Toma lá uma monção de beijinhos. É demais? Sou uma exagerada.







sexta-feira, 2 de março de 2018

A anedota da Anne Bota

- Desculpa ainda não te ter pago o que me emprestaste. Estás zangado?

- Não. Está descansado.

- Ontem só me perguntava: se tivesse que escolher entre ter Alzeimer ou Parkinson, qual preferia? E tu o que preferias?

- Que raio de pergunta!

- Responde lá.

- Talvez preferisse Alzeimer.

- Porquê?

- Para não te ganhar rancor.




Nem vos passa pela cabeça...

...aquilo que passa pela cabeça de cada um de nós!

Pela minha, pela tua, por aquele que passou ali há bocado, aquele que falou na tv ou falou na rádio ou tocou à campainha...

Mas há uns cérebros mais especiais...aparentemente tão banais e tão especiais...muitos mais do que se imagina?

Ou seja: Passar, passa, passa pela cabeça de (quase) todos nós, mas muito fica por passar...nem tudo passa naturalmente pela cabeça de cada um de nós. Nem tudo irá de facto passar, mesmo no futuro. De certeza ou quase de certeza?

Mas que o cérebro humano é do mais fascinante que se pode conhecer, eu não tenho qualquer dúvida. Caramba!

Por isso é que andamos há tanto tempo nesta demanda da descoberta de nós mesmos e parece que ainda estamos a gatinhar...

Daí o fetiche milenar sempre iminente (dos ricos, dos pobres, dos sábios, dos aprendizes...) que é o desejo de conhecer de facto o que de mais secreto e dissimulado ocorre a cada momento na cabecinha pensadora que é o excelente farol no topo do bípede humano.

Se conhecêssemos na íntegra os pensamentos de cada cérebro humano, seria...?

Assustador

                  hilariante

                                   enfadonho

                                                      fascinante

                                                                        desconcertante....?

Não te parece que cada um, ainda que subconscientemente, quer ser (nem que seja temporariamente) o operador cerebral dos demais?

Se calhar por isso é que, com tanto ato manipulatório e frustração pelo meio, o Homem teve que criar o computador. Para poder dar ordens e ser obedecido. Não só, mas também?

Seremos sempre o «boss», os donos disto tudo?

Nããã...nã te parece...?

Mas estás a equacionar a capacidade cerebral que dizem que ainda não é devidamente rentabilizada pelo humano nas suas atividades em geral?

Estou a pensar...





quinta-feira, 1 de março de 2018

A anedota da Anne Bota

- Gostas do meu penteado, marido?

- Estás linda, querida.

- Como é que sabes se não tiras os olhos do jogo de futebol, Alberto?

- Ora, porque apareces refletida no ecrã e nem consigo ver direito a bola.

- 😔



Queres pensar comigo VIII

- Olá. Às vezes oiço falar de karma, 'queimar' karma... Isso é bom ou é mau?


- Olá, como é que isso vai?! Palavras são palavras e temos que ter cuidado, não com elas, mas com o uso que fazemos delas. Mas são tão essenciais para nos entendermos que não podemos evitá-las. 
 É uma palavra do sânscrito que significa que há sempre uma reação a cada ação humana. O que nos remete inevitavelmente para a lei da física. Se praticarmos uma ação boa, a consequência é boa; se a ação for menos boa, a consequência também o será. Chama-lhe justiça, chama-lhe o que quiseres.
   A quem fale em queimar o karma, sim. Bem, essas pessoas, à partida, têm consciência que certas situações pelas quais estão a passar poderão ser fruto da reação de equilíbrio que essa lei aciona na natureza, a que os budistas, hinduístas, jainistas chamam o tal karma.

- Então nós, deste lado do mundo, podemos acreditar no karma?

- Eu acredito nas leis da física em qualquer parte do mundo. E penso que não sou o único. Mas, se me queres ouvir um pouco mais, dir-te-ei que há também o termo dharma. Já ouviste falar?

- Não, amigo. O que é?

- O dharma é mais um termo sânscrito, igualmente polissémico, mas o seu significado é essencialmente de missão ou propósito de vida. Que para mim também faz sentido. Os budistas olham o dharma mais como a recompensa que se tem, naturalmente, pelos atos bons.

- Então isso quer dizer que há vantagem em 'queimar' o karma individual?

- (Há quem fale no karma grupal...).
 Para mim, é um tudo-nada estranho falar desse modo. Eu penso que tem vantagem termos consciência dos nossos atos e perceber, dentro do possível, porque é que somos recompensados ou quando temos que repensar algo que não correu bem. Não muito mais que isto. Nada, mas nada mesmo, de pensar que cada um se deve auto-castigar ou conformar seja com o que for!

- E os castigos legislados?

- Ah, aí a regulação das sociedades com normas e leis humanas decididas e aplicadas com ponderação e determinação é vital para a boa convivência.

- Ou seja, as leis do universo são, pois, alheias à vontade humana porque estão na natureza que a acolhe e integra. Assim, uns falam de karma ou dharma, outros de destino ou fado, outros de benção ou pecado...que são, no fundo, aquela margem de liberdade de ação de cada um de nós, individualmente e em grupo, não?

- Sim, claro, no âmbito de cada vivência humana, de compreensão e de evolução ao longo de cada experiência. Com base na orientação que nos é dada, nos exemplos que observamos, nas tentativas-erros que vamos levando a cabo...

- Tens muito karma para queimar? (riso)

- Tenho muito mesmo. E tu? (pisca o olho)