sábado, 21 de janeiro de 2017

Sou amiga de toda a gente.

Quem me conhece minimamente (porque o conhecimento do outro tem muito que se lhe diga) sabe que sou de bom trato. Sou amiga de toda a gente. Sobretudo de quem me trata bem, naturalmente. Quem me conhece e tem dificuldade de me compreender, que é muita gente, eu continuo a ser amiga, sem moralismos.
Eu compreendo que não é fácil compreendermo-nos, neste caso compreenderem-me. Dizem: «Vê-se mesmo que és gémeos». Se calhar... Há muitos geminianos, seja lá isso o que signifique (gosto de pensar, por exemplo, que Fernando Pessoa também era geminiano).
Podem considerar-me vossa amiga à vontade, sem constrangimentos (mesmo aqueles que o fazem por razões menos altruístas).
Todos somos criticáveis. Eu sei que sou muito criticável.
Mas também sei que há pessoas que querem que eu seja muito criticável, mesmo que na boa da verdade não o seja, pelo menos muito criticável.
Aprendi a dar-me bem comigo mesma. A par disso, aprendi a ir-me conhecendo. Que é um trabalho inacabado.
Ninguém consegue negar o valor inestimável de cada ser humano nas suas qualidades. 
Somos corajosos nas nossas imperfeições.
Eu sei que, na minha pequenez e humildade, também sou admirada pelas minhas investidas, nem que seja em segredo.
Gosto dos meus amigos que, mesmo não pondo likes nas minhas publicações, acompanham com curiosidade as minhas indagações. Os que clicam, que são felizmente poucos, não são mais amigos. É porque gostam de pôr 'gosto', simplesmente.
O conceito de amizade é cada vez mais discutível, sobretudo nas redes sociais. Mas a palavra amigo é bonita e não deve ser usada com demasiada contenção ou desconfiança. Ainda que cada um deva naturalmente sempre usar uma «batuta no olhar».


meus amigos

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Oferecido ao Próprio

POEMA A ARTUR BATALHA
              
És fadista, de olhar saudoso,
cumprimentas todo o povinho;
no semblante, tens humildade,
no sorriso, a sincera amizade.
Não são aplausos o que ouves,
enlevado no grave cantar
sonhas com beleza do grande amor                                                               

o combate à extrema pobreza.

Foi de sonho o teu nascimento,
tens compaixão pelos demais,
e na voz o destino castiço
de uma Alfama com coração.
És príncipe do fado tradição,
de rimas cheias de vida.
Tens nome bem distinto: Artur;
apelido cheio de garra: Batalha.
                                 Lisboa, 26 de julho de 2013
                                        Rosa Maria Duarte




A anedota de Anne Bota.


(...) Numa consulta em Minas Gerais:

- Ó senhor doutor, o que é que acha deste estado?
- Acho que é um bom estado, livre, até nas doenças sociais...






quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Olha-te.

Tu és tu
que te outras

és sol
que s' escurece
és lua
que nos reconhece

és flor
que terás de murchar
és húmus
que sabe esperar

és rio
com limos que medra
és terra
de grãos e certa pedra

és cor
que não esmorece
és nada
que não se perde.

Rosa Maria Duarte




terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Autobiografia (página 16)






Porque é que segui a área de letras?


Eu nasci num ambiente popular, logo não intelectual, apesar de alguma curiosidade e sensibilidade que os meus pais tinham pelas artes do espetáculo e não só... Um bairro de clãs familiares.
A minha mãe chegou a confidenciar-me que, quando era solteira, gostaria de ser escritora e cantora. Quando mo disse, eu ainda nem fazia ideia do que viria a ser a minha vida.
Claro os sonhos dos mortais valem o que valem, mas nascem do fundamento da vontade.
Eu era uma miúda que gostava de coisas de miúdas, mas gostava de acompanhar as brincadeiras da maioria dos elementos da nossa família, que era do género masculino.
E como (quase) todas as miúdas na altura, gostava da ideia de casar um dia e ter filhos. Muitos, de preferência. Conversava com as minhas amigas sobre isso. Respondíamos a questionários das revistas e fazíamos jogos de adivinhas. Com quem casaríamos. Com quantos anos. Quantos filhos. Rapazes ou raparigas... Houve uma altura em que andávamos a brincar à leitura da sina na mão. Eu como tinha alguma imaginação, alguma malta pedia-me para interpretar os traços da sua mão. Eu achava piada à seriedade que atribuíam àquilo.
Com a chegada das telenovelas brasileiras e com a vinda de muita gente de África, as superstições e as interpretações místicas ganharam muita expressão nestes bairros, mesmo entre a gente mais nova.
A escola, por sua vez, encaminhou-me no caminho da ciência e do pensamento. Comecei então a ponderar em prosseguir estudos. Não foi fácil lá em casa...
A minha ideia era o jornalismo. Mas também a par da literatura. Enfim... decidi-me pelo curso de Letras.
Tive diários desde muito cedo. A escrita, não sendo logo o meu interesse maior, foi ganhando ascendente em mim. Fui confrontada pelos professores com a minha crescente competência para escrever.
Gostava muito de Ciências e Tecnologias, mas tinha que seguir um caminho. Venceu as Humanidades e dei continuidade no ensino superior.
Acho que ao princípio surpreendi algumas pessoas com a minha habilidade comunicativa, dado que era mais ouvinte que falante. Mas as pessoas começaram a habituar-se a esta minha faceta de amante das palavras para descobrir a intimidade do acontecer.
A escrita fez-se minha cúmplice fiel e feliz.
Com ela descobri que é bom ser-se humano, nem que seja para podermos comunicar com certas palavras que nascem em esquisso no nosso pensamento, vestem-se como podem de sentimento e são mais ou menos amadas pelo discernimento.

Fado caseiro