sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

As cartas de amor são sempre ridículas

Todas as cartas hoje em dia

são gravemente ridículas
Sem postos de correio para as enviar.

Claro que quanto mais são de amor
mais especialmente doloridas
no seu esperar, inconsoláveis.

Não seriam cartas de amor se não fossem
ridiculamente ridículas nesse amor
inconformado e amorosamente impaciente.

Quem não gosta de escrever cartas de amor?
provavelmente dos mais lúcidos
escritas as suas tremidas cartas ridículas
num amor universal e estupefacto.

E agora sem as poder enviar como gostariam!

Quem é que não gosta de ler cartas de amor, 
estupidamente tontas, sem corretor sentimental?

Porque o que é bom é ser ridículo por amor
não de outra forma banalissimamente qualquer
sincero e leal na sua conhecida insensatez
estranhamente impensado e com tanto amor
para dar e construir, fortunadamente ridículo.

Amar quem ama de amor sentido e magoado
num mundo desamado, com malandrices,
de ridículo para ridículo, cheios de pena
uns e os outros por amar tanto e tão pouco
que acreditamos ser em fraternidade.

E tão sérias as tontas palavras de amor
mesmo de redundante amor como antigamente
ridiculamente sinceras vindas do coração humano
tão redondinhas e esdrúxulas no seu escrever!

Rosa Maria Duarte





quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

O que é que queres ser quando fores crescido?

- Niño, porque estás aqui sentado todos os dias nesta rua?

- Tengo un poco de hambre.

- Vem comigo que eu te ofereço um bolo.

- Mi madre no está aqui ahora. Tengo que hablar con ela.

- Não há pressa. Esperemos um poquito por tu madre. O que é que queres ser quando fores crescido?

- Quiero ser un hombre honrado con trabajo y familia en mi país.

- Donde eres?


Cada um tem os seus moinhos de vento...

...em Almada
(Lazarim)









Humanidade: 

Já vivemos delírios quixotescos e ambições pancinas...

Quem somos hoje?

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

A anedota da Anne Bota

- Mana, vamos tirar um curso de Alta Costura?


- Donde é que te veio essa ideia? Não paras! Isso seria para quando?

- Talvez para o próximo mês...

- Humm...Não é má ideia. A tua amiguinha também é capaz de alinhar...

- Nã! Ela prefere mais o corte e costura!




terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Azedas com tão doce amarelo

Às vezes ficamos um pouco cinzentos. Reflexo de um céu nublado na nossa senhora alma.
Talvez também porque percebemos que há ciclicamente um alguém conhecido que resolve passar do aquém para o além. Grande parte das vezes, por vontade não própria, força de um tempo inflexivelmente renovador.
Aquele tempo que vai envelhecendo pessoas e folhas nas árvores, tornando-as quantas vezes vistosas numa paleta variada do vermelho ao amarelo. Muitas descem à terra e amantizam-se com ela. Perfumando-a. Alimentando-a. 
Outras, teimosas, agarram-se, firmes, aos ramos onde nasceram e quase nem mudam de cor. Escusam-se à morte e querem ver a vida do alto de um tronco que é o seu barco-berço ao vento.
Há um rosto de neblina, friagem, chuva miudinha, onde soltas gotículas fazem despontar uma colcha verde de trevos e demais ervas, a que se juntam umas florinhas amarelas a dançar, esbeltas, na aragem de um certo janeiro.
São belas pintas amarelas a sobressair no manto verde-chão dos pedaços de campo em constante avidez de água e de húmus.
São as azedas tão doces vestidas de um amarelo sol e limão que eu tão bem conheço dos meus tenros percursos de Alcântara à escola primária da Tapadinha.


Trim, trim, trim, trim, trim, trim...

- Alô, alô!

- Sim? Quem fala?

- É a dona Maria Lisboa? Daqui é o técnico das telecomunicações.

- Hã?? Pois, pois, muito obrigado pelo seu contacto, mas eu não estou interessada em mudar de plano nem de tarifa, neste momento.

- Sim, minha senhora.

- Sei que podia pagar menos, estou a ser explorada, mas estou farta de mudar de operadora e é tudo uma chatice.

- Claro, minha senhora. Concordo consigo. Eu só queria fazer o teste de conexão. Parece que esteve sem rede durante uns dias.

- Eu? A sério?

- A sua família tem lhe ligado?

- Agora que penso nisso...

- E os seus amigos?

- De facto...

- E as suas fãs...?

- Tem razão. Olhe, já que assim é, vou aceitar a sua chamada. A generosidade é coisa que não abunda nos dias de hoje... Então, diga-me cá, como lhe tem corrido a vida?


segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

«Chapéus há muitos, seu palerma!»

Homenagem ao ator português Vasco Gama que coloriu a minha infância com o seu humor e arte de representação.




«Abaixo o Fado»
Rosa Maria Duarte
Óleo s/tela
55x46