quinta-feira, 9 de maio de 2013

a arte nas escolas

Publicado no SETÚBAL NA REDE


EDUCAÇÃO PARA A CULTURA E PARA AS CULTURAS

 

(foi mais ou menos assim a intervenção espontânea, após o contributo dos oradores do painel sobre o tema Cultura na região, entre as demais intervenções, que marcou o arranque do ciclo de conferências do Setúbal na Rede)

De tudo o que de importante foi aqui dito, gostaria apenas de acrescentar que a educação para a cultura e para as culturas continua o seu difícil e sinuoso caminho nas escolas em geral, porque, como sabemos, as artes na escolaridade obrigatória, que é uma área vital da cultura desde tenra idade, se reduz praticamente ao ensino de apenas 2 anos de educação musical no segundo ciclo, à educação visual e pouco mais. Mesmo como opção, as ofertas artísticas são escassas. As poucas escolas com essas ofertas realmente disponíveis implicam muitas vezes sair da área de residência. Muito nos têm valido, aos professores e aos pais, para a educação artística das nossas crianças e dos jovens, os grupos de teatro com o de Almada e de Setúbal e os clubes recreativos locais.

É a educação para o consumismo e para a competição desenfreada que deve dar espaço à cultura, à cultura artística, performativa, plástica, poética, reflexiva, como veículos privilegiados dos valores humanos, éticos e étnicos. Porque se tratam de momentos particularmente críticos nesta conjuntura político-social e económica, mais emergentes são ainda as atitudes éticas, cívicas e pedagógicas, urgentes para reforçar em contraponto.

Desde os primeiros anos de vida de cada criança, a partir de certa altura também na escola, inequivocamente é a prática do exemplo o melhor método pedagógico para a apreensão e interiorização do valor do respeito por si e pelos outros, que é universal, inestimável e transversal a qualquer cultura. Daí, assumir-se o simples ato de observação atenta da realidade, a compreensão crítica e criativa em cada experiência. Com essa responsabilidade acrescida, cada um de nós vê-se confrontado com a inevitabilidade de se reencontrar neste século individualista e reorientar as suas prioridades sociais, profissionais, familiares, necessárias à sua satisfação pessoal. É que sabemos ser a verdadeira realização pessoal o porto seguro do bem-estar de cada indivíduo, só possível pela participação alargada e o consequente reconhecimento grupal. Sobretudo por aqueles grupos que, naturalmente, ganham maior significado, conforme os objetivos e os comportamentos que os animam.

Na nossa região de Setúbal, e estou a pensar na minha escola, a educação é pensada em função sobretudo da cultura dominante, mas também procura respeitar as outras culturas, nomeadamente a africana, a brasileira, a chinesa, a indiana, a afegã, a ucraniana, que têm expressões próprias e de grande variedade local e regional que, em muito, valorizam a nacional e em particular aquela que vai ganhando traços próprios, que é a da nossa região de Setúbal.

O segredo é mantermo-nos em rede, não apenas com os nossos ideais de vida, que é o que mais nos dignifica, mas também, e por essa via, uns com os outros nesta conjuntura atual mais dolorosa. Não nos deixarmos entristecer e constranger com as austeridades económica, política e ética, mas mantermo-nos particular e permanentemente em rede, como vasos comunicantes, através dos melhores projetos que a nossa região nos tem felizmente presenteado: o Teatro Municipal de Almada, o T.A.S., o teatro Extremo, o Setúbal na Rede, as Coletividades e Associações, entre muitos outros.

                                                      Palmela, 5 de fevereiro de 2013
                                                                     Rosa Duarte
 

quarta-feira, 8 de maio de 2013

[Setúbal na Rede] - Educação para a cultura e para as culturas

[Setúbal na Rede] - Educação para a cultura e para as culturas

Se falares a verdade, mais tarde ou mais cedo, és descoberto

Gostei de ouvir reproduzir a afirmação de Óscar Wilde: "Se falares a verdade, mais tarde ou mais cedo, és descoberto." Também ouviram esta citação há vários dias atrás?
 
A verdade é um investimento de sucesso, mais que não seja a médio ou a longo prazo.

Se precisamos mesmo de falar sobre os outros, mais vale com seriedade. Até porque não vale a pena grandes justificações retóricas perante as simples ou as mais consequentes atitudes, porque elas falarão por si. As palavras podem eventualmente poupar algum tempo a quem procura entender os acontecimentos e os carateres, mas também podem afastar da verdade. São belas as palavras. Gostamos delas. Mas uma argumentação pode ser mais sedutora que verdadeira.
Então, ao agirmos com sinceridade e lealdade, o mais que nos pode acontecer um dia é sermos descobertos. Sermos descobertos como seres dignos e capazes de atos de bondade velada. E, porque não?, um sentido elevado de abnegação e discrição. Podemos mesmo proteger ou ajudar, sem proveito próprio ou com riscos próprios... Se por acidente descobrirem o nosso ato de humanidade, resta-nos agir com discrição. A solidariedade facilmente é interpretada como devaneio ou conveniência.

Não devemos perder as boas oportunidades de desfrutar de um bonito pensamento sobre um ato de um ser humano, sempre em construção.
 
Tenham um bom dia.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

José Luis Sampedro deixou-nos...muito para pensar e fazer!

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A sua lucidez foi notável até ao fim. Chegou aos 96 anos. Não apenas com a consciência de estar vivo, que muito prezou e ensinou a aproveitar, mas com uma incomum consciência social incorruptível. Fez muito pela economia, pela literatura e pelas causas libertadoras. 96 anos quase pareceria muita idade, não fosse a apreciada presença para quem o procurava acompanhar... Sabemos que sentiu a sua hora a chegar...disse-o sem tristeza, com seriedade e saciedade... mas manteve-se com vigor e coragem firme nos seus ideais, como sempre estivera no auge da ditadura.
Continua a ser forte fonte de inspiração para a gente do seu tempo. Afinal José Luis Sampedro foi muitas gerações numa só vida. Além fronteiras.
 Inspiração para mim, e muitos mais. E incrivelmente, sobretudo para os mais jovens, que são os mais críticos das atuais sociedades. Os mais sacrificados com a má gestão da repartição de recursos e oportunidades.
Vamos ver se o José Luis, e a lucidez de outros seres maiores, conseguirão provar que só falta um pouco de ética mundial para resolver esta crise de pensamento empreendedor e de atitudes para o bem comum.
O planeta continua generoso. A vida é maravilhosa. O ponto de encontro é a cooperação.
Não precisamos de ser solitários. Não tenhamos medo uns dos outros. Basta sermos solidários. Há lugar para todos. Somos todos peças únicas. Basta partilhar momentos e provimentos.
A humanidade é o grande projeto. O mais lucrativo e o mais compensador.
Continuamos juntos.
  

A MÃE

Ser mãe não é receber um beijo ou uma flor
embora muitas vezes nem tal recebam

É ser respeitada pelo seu amor incondicional
e pela sua individualidade humana

Aconselhar, afagar, desfrutar, refilar
com suas crias e amá-las pelas suas conquistas

Gostar de as ver comer, rir, conversar, crescer
gostar de as ver bem amadas por si próprias

E por todos e cada um também
porque vão sendo e serão filhos de valor

E gostar de ser mãe de cidadãos de valor
por ser ela mesma cidadã de valor

E de ensinar e de aprender e de sorrir
de criar filhos e obras de arte

De ser apreciada pelas suas preocupações
e despreocupações e contemplações

Gostar ser mãe e mulher do seu tempo
de cantar, estudar, trabalhar, passear

Abraçar o mundo dos filhos, dos pais
dos amigos, o seu mundo também

Amar o fado das cantigas e das guitarradas
plangentes do dia a dia melodioso e belo

De ser fadista da beleza e do destino
construindo um mundo melhor com a sua voz.

Cantar até que a voz lhe doa e lhe entoe
o amor e a fraternidade maior de saber Ser.

Ser mãe-poeta do fado e do Acontecer.

                                                   Lisboa, 5 de maio de 2013
                                                          Rosa Duarte


sexta-feira, 3 de maio de 2013

A educação no SETÚBAL NA REDE

http://www.setubalnarede.pt/content/index.php?action=articlesDetailFo&rec=19480
 
A EDUCAÇÃO DOS FILHOS DOS OUTROS

Porque é que tenho de pagar a educação dos filhos dos outros?

Nunca ninguém vos confrontou com este pensamento?

É uma interrogação mais ouvida do que o desejável, que se prende e se depreende facilmente da conjuntura económica atual. Embora se saiba que, na prática, a educação nunca foi verdadeiramente isenta de pagamentos, dos dispendiosos manuais, os consumíveis diversos de cada área de saber ou disciplina, as refeições fora de casa, as visitas de estudo…, todavia parece que agora estão a ser equacionados novos custos adicionais. Parte das atividades extracurriculares. Para já…

Até ao momento tem havido pequenos, cada vez mais pequenos, subsídios para os mais carenciados, de acordo com o rendimento per capita. (E há quem os condene!) Esperemos que os famigerados não sejam arrastados pelos cortes. Alguns poderão ser fraude e oportunismo, é possível. Mas cabe às instituições certificadas acionarem os mecanismos legais para os combater e evitar. Porque bem pior são os paraísos fiscais que, se acabassem, então a crise instalada seria uma inofensiva criança irrequieta. O bem-estar de poucos não pode estar a cargo do sofrimento de muitos!

E se desenvolvermos a corresponsabilidade social e a cooperação nesta sociedade que precisa de continuar a investir e de cumprir regras?

A responsabilização dos pais na educação dos seus filhos é um valor da máxima prioridade. É aqui que reside a génese do sucesso da construção familiar, social, económica e política de uma nação. Esse papel educativo parental deve ser exercido com uma expressão muito efetiva no acompanhamento diário dos educandos, quer na interação com a sua vida escolar e social, quer na resposta às suas necessidades materiais e didáticas. Na certeza de que os filhos dos outros poderão ser os amigos dos nossos. E não há pais perfeitos. Apenas muitos que dão o seu melhor, o que já é perfeito.

Se devemos instituir multas para os pais que descuram as suas responsabilidades educativas? Percebo a intenção da ideia, mas considero que a multa mais pesada para qualquer pai ou mãe é ou deveria ser a sua própria consciência perante as dificuldades ou mesmo incapacidades de ajudar os seus filhos no direito inalienável que é a educação. Se nem todos são bons pais é porque eles próprios precisam de apoio. E não estou só a falar de dinheiro, naturalmente. A relação da escola com os pais é, na maioria dos casos, muito proveitosa. Mas a verdade é que é mais fácil educar uma criança ou um jovem do que um adulto. Não obstante o amor dos pais ser tão incomensurável que conseguem, às vezes, autorreavaliar-se e reformarem os princípios da sua cultura familiar. É bom quando se acredita no processo e nas metas de um sistema educativo, também no português, participando ativamente no trabalho que há a fazer em cada realidade local e escolar.

Porque é que temos de pagar a educação dos filhos dos outros?

Porque aos pagarmos a educação dos filhos uns dos outros com os impostos de todos, refiro-me aos que os pagam bem entendido, estamos a garantir, à partida, que todas as famílias poderão defender uma escolaridade obrigatória para os seus filhos. Mesmo que, como sabemos, alguns pais ainda não tenham percebido o verdadeiro impacto formador da aprendizagem em contexto escolar para o bom crescimento dos seus educandos. E, acima de tudo, qualquer pai não consiga encontrar pretextos no seu íntimo, por mais cético que seja, para não participar da educação dos filhos, embora muitas vezes se debata com a difícil situação de desemprego e/ou de divórcio, e, não importa como, consiga cooperar no trabalho escolar com humildade e resiliência face ao aturado processo de aprendizagem de qualquer indivíduo.

Pois não é a consciência individual de participação num coletivo uma das principais aprendizagens a começar no seio familiar e a estender-se ao ensino nas escolas através de experiências pedagógicas especializadas que se querem formativas e diversificadas?
                                                                                                                  Rosa Duarte