terça-feira, 11 de novembro de 2014

dia 3 de dezembro no restaurante «A Muralha»

   Queridos Familiares, Amigos, Colegas, Visitantes e Estimados Anónimos,

   É com muito prazer que vos venho convidar para o lançamento do meu 2º CD de Fado, que se intitula «FADO FIRMADO», no dia 3 de dezembro de 2014, às 18h00m, no restaurante «A Muralha», que fica sensivelmente em frente ao Museu do Fado, em Lisboa (Alfama).

   Agradeço mais uma vez ao meu produtor Vital D'Assunção pelo apoio ao longo destes meses. E pelo seu engenho e experiência na arte da viola de fado e do baixo.

   Agradeço também ao Filipe Lucas que está sempre pronto a acompanhar-nos com a sua mestria de grande guitarrista e ao Monte da Música que tem sido o berço dos CD's da Rosa Maria Duarte (fora tantos outros de outros fadistas que ajudou a nascer).

   Obrigado por existirem.


 
Lisboa, 11 de novembro de 2014
 
Rosa Maria Duarte

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

a pedido de um aluno


OS LIVROS NA MINHA INFÂNCIA

Alto, louro, olhos azuis, de mão pesada e ágil, ele era muito metediço e matreiro. Tinha p’rá aí uns treze anos. Ainda que não parecesse, gostava muito de nós, da nossa pequenez e fragilidade feminina, mas invariavelmente cumprimentava-nos ao longo corredor da casa com uns bons calduços e uns beliscões miudinhos que faziam inchar as nossas carnitas rosadas tão tenrinhas.

Todos éramos mais novos do que ele. Na época éramos só três, para além dele mesmo. Por isso tínhamos de respeitar o nosso irmão mais velho, mesmo nas suas diabruras. E respeitávamo-lo. Era, até, mais do que respeito…

Eu e a minha irmã padecíamos do mesmo fraco: gostávamos dos seus livros. O bebé que era o meu irmão a seguir a mim ainda era muito pequenito para reclamar estes devaneios e aventuras visuais e táteis. É que lá em casa não havia dinheiro para livros. Mas estes de que falo eram os da escola do mais velho, e com esses não se brincava!

Mas as duas, abelhudas cúmplices minorcas, íamos sorrateiras até ao quarto do nosso irmão mais velho visitar os manuais escolares que ele tinha guardados religiosamente, em especial dois, com imagens do nosso agrado: o livro de Religião e Moral e o livro de Ciências da Natureza. Levávamos os livros até à sala de jantar contígua e, às escondidas da mãe (o pai passava temporadas fora), folheávamos gulosamente todas aquelas imagens que nos pareciam reais e grandes, com muita cor e nitidez. Passávamos-lhes os dedos a avaliar a forma de cada bicho e de cada folha fotografados. Daí vieram-nos mais tarde as manias com os herbários, as grandes coleções de folhas recolhidas da serra do Alvito e da Tapada da Ajuda. Mas isso foi bem mais tarde.

Eu não sabia o nome do livro de Religião e Moral e chamava-lhe o livro do filho do pai que mataram. Por muito que olhasse, continuava impressionada com a imagem de Adão a empunhar uma faca para matar o filho a mando de Deus. Olhava-a, olhava-a e não me conseguia decidir do que sentia...

Eu e a minha irmã tínhamos essa ocupação secreta que nos unia, enquanto o bebé chuchava às escondidas debaixo da mesa da sala.

O meu irmão mais velho, esse sabidão ruidoso, quando entrava em casa, estava sempre à espera de nos apanhar de surpresa, e caçava-nos muitas vezes, com os habituais gritos encenados, em flagrante delito. Nós, ruborizadas e choramingonas, lá atirávamos os livros para debaixo dos sofás e das cristaleiras, no meio da atrapalhação, na esperança da ocultação. Na esperança de que ele estivesse a fazer só de conta que tinha dado conta da infração, por mero hábito torturador. Mas quase sempre apanhávamos mais calduços e beliscões. À séria. A doer. E foi assim que ficámos preparadas para, se quiséssemos, ingressar em qualquer corpo dos fuzileiros. Ainda hoje somos umas mulheres guerreiras, imbatíveis, na nossa aparente feminilidade. Que fazem pensar duas vezes quem ousa nos beliscar…

E, curiosamente, quando o nosso irmão deixou de ser um ‘enfant terrible’, passou a olhar e a tratar-nos com umas ladies, com preocupação e desvelo. «Rosa, não cortes o cabelo que te fica bem comprido». Surpreendia-nos.

À minha irmã um dia ensinou-lhe a tocar guitarra. Eu não tive na altura essa sorte porque ainda tinha os braços pequenos. Mas como tinha olhos curiosos, fui incumbida de lhe trazer os livros, que me indicava por escrito, da carrinha da biblioteca da Gulbenkian, que estacionava na calçada da Tapada às quartas-feiras e, se eu quisesse, podia trazer um também para mim. Visto que eram três por semana. Uauh!

A princípio, quando subi o degrau para entrar na carrinha cinzenta, um pouco curvada, olhava as prateleiras com estranheza, a cheirarem a tinta e a papel velho. Com uma série de livros, todos eles com as capas escuras e lisas. Talvez a chamarem por mim. Resolvi então descobrir o que tantas letras estavam a fazer dentro de tantos livros.

Comecei arbitrariamente pelo V: Veríssimo, Erico, Olhai os Lírios do Campo. Soou-me bem e o rapaz que conduzia a carrinha, e que tinha pouco mais que a idade do meu irmão, encorajou-me.

Dali em diante, a simples visita semanal tornou-se um compromisso amoroso revigorante. Ainda hoje somos companheiros diários de grande nobreza e de diálogo intenso, com tantas histórias para contar.

No quotidiano, quando trabalho com os meus alunos os contos da Clarice Lispector, por exemplo, eles, intrigados, perguntam-me porque é que a autora-personagem da «Felicidade Clandestina» confidencia que, em pequena, ao emprestarem-lhe um livro, sentia o coração quente como o de uma mulher amando o seu amante. E eu conto-lhe a minha história. Ah… E sorriem, com algum enlevo e esclarecidos.

É que eu ainda continuo a gostar de me balouçar na cadeira com um livro aberto no colo, acariciando-lhe a textura e a cor, quantas vezes em êxtase deveras puríssimo. Antes de virar a última página…

                                                                      Laranjeiro, 6 de novembro de 2014

                                                                                  Rosa Maria Duarte
 

domingo, 2 de novembro de 2014

a pedido do meu amigo Toni


O FADO DA MINHA INFÂNCIA

Para mim falar de fado é simples, mas doloroso ao mesmo tempo.

Simples porque sei que vive de sentimentos genuínos de gente humilde, mas, por vezes, doloroso ligado à faina dura do mar, marcado pela distância física que eleva a mágoa o grito silencioso de saudade.

Eu nasci e cresci com ela em casa.

Vivi os meus primeiros vinte anos de vida com os meus pais, mais cinco irmãos, na rua de Alcântara nº 17 – 2º andar, num andar alugado com esquerdo e direito. Éramos muitos. O meu pai é que sustentava a casa.

Volta e meia, quando o meu pai regressava do mar, a minha mãe engravidava. Nessa altura, os partos ainda eram feitos por parteiras que iam a casa das parturientes. Só o meu irmão mais novo, o Alex, nasceu na maternidade Alfredo da Costa. A minha mãe já tinha quarenta anos e foi aconselhada pela obstetra a ir para a maternidade.

O meu pai manteve-se durante muitos anos marinheiro da marinha mercante. Fez serviço no paquete Vera Cruz, Santa Maria e outros que não me lembro.

Apesar da cultura familiar rigorosa e muito conservadora, até pelo facto de o meu pai estar ausente de casa durante muitos períodos no ano, nós tratávamos os nossos pais com à vontade e tratávamo-los por tu. Eles não se importavam. Os bairristas são assim, descontraídos e afáveis. E deixavam-nos brincar e jogar à bola  na rua, nas traseiras da rua principal, na rua das Fontainhas, que era fabril e menos movimentada. Ainda que os horários das nossas brincadeiras fossem muito controlados...

Havia muita miudagem para jogar: às escondidas, à apanhada, à barra, à linda falua…barrigadas de brincadeira. E estávamos sempre a esticar a sorte…gritávamos para o 2º andar: mãe podemos ficar mais um bocado? A mãe nem respondia. A vassoura ficava à nossa espera atrás da porta…

Os nossos pais não tinham muita instrução, mas eram pessoas atentas. Eram amantes da Amália, da Hermínia, do Alfredo Marceneiro, do Fernando Farinha, do Maurício, do Max, do Carlos Ramos e de tantos outros.

Mas, até por algumas curiosas parecenças físicas, a referência vocal do meu pai era o Alberto Ribeiro, ator galã que contracenou no filme «Capas Negras» com Amália Rodrigues. Foi com um tema deste cantor que o meu pai ganhou o segundo lugar no concurso de fado da Emissora Nacional, há muitos anos, quando era eu ainda uma raquítica miudita. Há quase quarenta anos!

Apesar da proximidade da minha casa às famosas casas de fado de Alcântara, nunca me foi autorizado aproximar-me de lá. Nem se falava nelas lá em casa. Só soube da sua existência já era quase adulta. Até então era uma espécie de tabu.

Já rádio e televisão não faltavam lá em casa. Ouvia-se muita música. Gravadores e gira-discos também, mas só mais tarde quando os meus irmãos mais velhos começaram a trabalhar.

O meu pai acordava sempre muito cedo. Ia para a casa de banho acompanhado do seu transístor para ouvir a Emissora Nacional e a Rádio Renascença. Gostava muito dos parodiantes de Lisboa. E ali ficava, na casa de banho, uma, duas, as horas que fossem necessárias para se escanhoar bem, a cantarolar e a assobiar, de janela escancarada na cozinha contígua virada para a fábrica dos parafusos com uma linha de Tejo no horizonte, em camisola interior de alças e pele repleta de creme Nívea para compensar o forte bronze do mar.

A minha mãe preferia as radionovelas como a Simplesmente Maria. Chamava-me para ouvir com ela a rádio, porque achava um desperdício gastar as pilhas do rádio só com ela. E chorava a cada instante com a história triste da Maria, que era uma simplesmente maria. Um sucesso radionovelesco.

O meu pai marinheiro, apesar de tudo, procurava não se ausentar por períodos muito longos. Evitava as viagens de longo curso. Não muito mais de um mês. O seu marialvismo acentuado era, contudo, genuíno, que incluía, felizmente, os bons rituais familiares bairristas. O domingo era família (quando não estava em trabalho). Ou íamos para o Alvito fazer uma sardinhada e brincar para o parque infantil, ou íamos para a Tapada da Ajuda depois de almoço e estendíamos camas de rede e montávamos carros de esferas.

O campo era o oxigénio do meu pai. Para ele, assumido beirão do Fundão, Valverde. Para a minha mãe também, mas não tanto. Porque costurava em casa e não sofria tanto com a agitação da cidade. Ela gostava e gosta da sua terra na Serra da Estrela, mas veio cedo para Lisboa com oito anos, e nunca lhe sentiu muito a falta.

Em contrapartida os filhos, todos, adoravam e adoram a sua terra, uma aldeola chamada Vide. Até o marido que quase gostava tanto da terra dela como da dele.

Desde que nascemos têm sido grandes momentos lá. Se algum verão não permitia as férias na Vide, era um desgosto infindável para nós, criançada às vezes tão insuportável. Éramos muitos, uma escadinha, quatro rapazes e duas raparigas, estas, umas marias-rapazes. Fazíamos marcação cerrada, se não fôssemos. Com tortura psicológica requintada. Papelinhos em todos os bolsos dos casacos dos nossos pais a repetir: vamos à Vide, vamos à Vide, vamos à Vide, vamos à Vide...

Belos tempos. Era o lugar mágico, a Vide. Ainda é. Os nossos pais tinham mais paciência para nós. Podíamos estar sempre fora das paredes da casa. Íamos tomar banhos revigorantes ao rio. Brincávamos todos juntos, até com os nossos pais. Às vezes o clã familiar ainda se alargava mais. E cantarolava-se. Faziam-se festivais da canção. Cantavam-se histórias. Faziam-se caminhadas na serra. Ía-se à chinchada. Adivinhavam-se as constelações na brilhante e majestosa abóbada celeste, tão  natural e recortada pelo horizonte serrano…

Não levávamos tv. Nem queríamos. Só música da rádio e muito fado vadio…

Onde está a pequena Rosa Maria do vestido de veludo vermelho, mangas em balão, sapatos de verniz preto e fivela na procissão da Nossa Senhora da Assunção?

O tempo, esse grande escultor. Um construtor demolidor... O nosso pai morreu. A nossa mãe envelheceu. A família multiplicou-se. E o fado perdurou e mantem-nos ligados pela saudade.

É por isso que eu não consigo deixar de cantá-lo. Porque o fado não é de quem o canta.

O fado é um recado intemporal, repetido, mas sempre único e sentido.

É a memória de uma família, de um povo que canta o seu destino em cada voz dolente e oferecida, em oração.

É o silêncio que se vai afinando em verso, desde a infância até ao entardecer.

                                                                        Alcântara e Madragoa, 2 de novembro de 2014

                                                                                                            Rosa Maria Duarte







 

 

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

O nosso seminário é já nesta 6ª, dia 17 de Outubro, às 11h na Faculdade de Letras (Sala Pedro Hispano).

Desta vez contamos com duas comunicações:

Rosa Duarte
“O discurso mnésico autobiográfico em De Profundis, Valsa Lenta.
A (in)consciência da sensorialidade e do trauma no laboratório de escrita”
Nuno Miguel Proença
“Identidade, sofrimento e narrativa”
 





Como sempre a entrada é livre e convidamos todos a participar e a divulgar.

Os melhores cumprimentos,
 

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

crónica publicada no «Setúbal na Rede» e no «Diário da Região»

Educação
por Rosa Duarte
(Professora)


O Pedro não Brinca em serviço

Há dias admirei-me, agradavelmente, com as novas do diretor fundador do jornal "Setúbal na Rede" ao saber que, temporariamente, ia para o outro lado do mundo para abraçar um novo desafio profissional. Fiquei contente, reafirmo, mas, ao mesmo tempo, com um bichinho secreto a remexer-se cá dentro. Creio que foi o navegador quinhentista empreendedor que cada português tem dentro de si…

Hoje, mais conformada com o quotidiano sedentário, decidi homenagear, à minha fraca maneira, os 17 anos da construção e dedicação do Pedro ao "Setúbal na Rede". Ninguém me encomendou o sermão e por isso peço desculpa pela ousadia. Mas este impulso é legítimo porque é de gratidão por ter aprendido com ele boas coisas neste mundo vasto da informação. Ensinou-me e inspirou-me para o nosso RLG Reportagem. (A minha desatualizada cultura jornalística não era digital. Em tempos, eu apenas lançara o jornal escolar o "Celeiro" em suporte de papel…)
 
Este sentimento é, assim, também dos meus alunos e da minha equipa do jornal escolar digital, formada há cerca 2 anos a esta parte. É que o jornalismo ensinado por profissionais é mais vivo, mais real e envolvente. E os bons jornalistas fazem sempre falta no ensino pela sua seriedade e resiliência!
 
Agradecer, também, porque nós, professores, devemos uns aos outros, de vez em quando, uma palavra de apreço pela dedicação à carreira sinuosa e fascinante que é a docência. O jornalista Pedro Brinca foi um bom professor comunicador nos workshops e noutros encontros escolares (para além dos seus outros compromissos no Instituto Técnico e/ou outros…).  
 
Está visto que do outro lado do mundo, o mar é bem azul e deslumbrante. E com o toké de pintas coloridas no seu timbre exótico no morno ambiente do quotidiano…muito material de inspiração, portanto.
 
"Há mar e mar, há ir e voltar" ou "circular é viver" são frases sugestivas ou rifões que ocorrem por reforçar qualquer coragem para o desafio, a aventura, a viagem, que apelam igualmente ao regresso. Palavras que constroem os nossos pensamentos e nos convencem a ouvir, de vez em quando, a vontade própria do momento. Sejam estas ou outras, palavras mais ou menos feitas, quantas nascem no mundo matreiro da publicidade, mas dão uma ajuda inestimável à consciência coletiva, no bom serviço à comunidade. A primeira, por exemplo, é do poeta e publicitário Alexandre O’Neill, autor do célebre poema "Gaivota", originariamente cantado por Amália Rodrigues e musicado por Alain Oulman. Amália, essa grande fadista homenageada diariamente na rádio com o seu nome.
 
E ainda constato, sem querer, como é fascinante o mundo das naturais cumplicidades entre o jornalismo, a literatura e a música que vivem de mãos bem próximas e irrigadas. Não como uma amizade garantida nem perfeita, mas uma joia nas suas imperfeições que confirmam o seu valor e compromisso genuínos.
 
São muitos os exemplos dos escritores que começam no jornalismo, experimentam a literatura e, alguns, ainda lançam olho ao mundo da música… Quantos jornalistas são especialistas, também, na área musical? E ocorre-me a tertúlia musical no Musicando, organizada pela Câmara e pelo "Setúbal na Rede", no dia 14 de setembro, na Casa da Cultura, que foi um momento agradável, com histórias e canções de vários artistas setubalenses dos anos 50 aos 90.
 
A escrita é a fala da música e o verbo o alimento dos jornalistas. Todos se alimentam de ritmos e se elevam a partir dos factos. Sabem sentir com as palavras no olhar e perscrutar o acontecido (in)temporal.
 
Escrever notícias, afinal, não é "só" rabiscar: é olhar o mundo de frente em cada horizonte.
 
Aprender a ver e a compreender.
 
Um escrevedor é um trabalhador dorido com calos de pedreiro ou golpes de sapateiro. E, insatisfeito, anda errante na vida à procura da melhor matéria-prima para preparar e partilhar. E caminhar para quebrar mais pedra…até esculpir uma simples história.
 
Como nos confidenciou o cronista António Lobo Antunes: foi ao fim de muitos anos de escrever que ele descobriu que não sabia escrever… Que é a natural descoberta do sábio que persiste no caminho da humildade e do desafio.
 
E esta conversa toda só para desejar ao Pedro um bom trabalho neste seu mais recente desafio profissional. Ficamos a aguardar novas…
 
Aproveitamos para saudar o novo diretor do jornal desta região que, não é por ser a nossa, mas está cada vez mais glamorosa e atenta aos desafios do futuro.


Rosa Duarte - 15-10-2014 08:51
 

[Setúbal na Rede] - O Pedro não Brinca em serviço

[Setúbal na Rede] - O Pedro não Brinca em serviço

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Há quem já não possa ouvir falar de praxes!


PARA UMA SOCIEDADE PROGREDIR, PRECISA DE CRITÉRIOS DE EXCELÊNCIA


Não será, com certeza, a primeira vez que se ouve esta frase, mas é bem verdadeira e incontornável. Só se progride se formos exigentes com o caminho do progresso social, que deve zelar pelo ritmo crescente do progresso moral.

O caminho dos valores é inequívoco e indispensável para a jornada coletiva.

Na semana passada, as praxes a recriar a tragédia do Meco, com palavras desrespeitosas alusivas às circunstâncias em que os seis estudantes morreram na praia do Meco, em Leiria e em Coimbra, não podem ficar impunes. Nem tão pouco por explicar.

Há uma intenção nestas atitudes que tem que ser apurada.

Se visava pôr a ridículo a forma como os media noticiaram todo o caso do Meco, queremos perceber como.

Se visava simplesmente mediatizar o ridículo das suas praxes, tanta imaturidade não deve ser aceitável em universidades.

Pela parte da direção da ESTG, esta "lamenta profundamente" a atuação dos estudantes e apresenta "sinceras desculpas" a quem possa ter afetado e vai "averiguar os atos praticados, apurar os responsáveis e apreciar as medidas a tomar".

No meu ver, há que ponderar a possibilidade de, no futuro próximo, as comissões de praxe passarem a ser eleitas também pelo corpo docente de cada faculdade. Inevitavelmente cada comunidade olha também para os seus professores quando é questionada a responsabilidade dos certos atos dos alunos, mesmo dos mais veteranos (ou sobretudo desses…)

Ouvem-se as associações de estudantes lamentarem o sucedido e condenarem a "atitude imatura de envolver uma tragédia no que deve ser uma atividade de integração dos novos estudantes". Não outra coisa se esperaria.

Não se pode deixar que dois ou três elementos estudantis, confusos ou imaturos, comprometam a imagem de toda uma excelente geração de jovens de boas práticas académicas, cívicas e sociais, que se pautam pelo respeito mútuo e partilham do forte pesar pelo desaparecimento dos colegas praxados no Meco e da dor das suas dedicadas famílias.

 

                                                                        Laranjeiro, 6 de outubro de 2014

                                                                                Rosa Maria Duarte