sexta-feira, 3 de maio de 2013

A educação no SETÚBAL NA REDE

http://www.setubalnarede.pt/content/index.php?action=articlesDetailFo&rec=19480
 
A EDUCAÇÃO DOS FILHOS DOS OUTROS

Porque é que tenho de pagar a educação dos filhos dos outros?

Nunca ninguém vos confrontou com este pensamento?

É uma interrogação mais ouvida do que o desejável, que se prende e se depreende facilmente da conjuntura económica atual. Embora se saiba que, na prática, a educação nunca foi verdadeiramente isenta de pagamentos, dos dispendiosos manuais, os consumíveis diversos de cada área de saber ou disciplina, as refeições fora de casa, as visitas de estudo…, todavia parece que agora estão a ser equacionados novos custos adicionais. Parte das atividades extracurriculares. Para já…

Até ao momento tem havido pequenos, cada vez mais pequenos, subsídios para os mais carenciados, de acordo com o rendimento per capita. (E há quem os condene!) Esperemos que os famigerados não sejam arrastados pelos cortes. Alguns poderão ser fraude e oportunismo, é possível. Mas cabe às instituições certificadas acionarem os mecanismos legais para os combater e evitar. Porque bem pior são os paraísos fiscais que, se acabassem, então a crise instalada seria uma inofensiva criança irrequieta. O bem-estar de poucos não pode estar a cargo do sofrimento de muitos!

E se desenvolvermos a corresponsabilidade social e a cooperação nesta sociedade que precisa de continuar a investir e de cumprir regras?

A responsabilização dos pais na educação dos seus filhos é um valor da máxima prioridade. É aqui que reside a génese do sucesso da construção familiar, social, económica e política de uma nação. Esse papel educativo parental deve ser exercido com uma expressão muito efetiva no acompanhamento diário dos educandos, quer na interação com a sua vida escolar e social, quer na resposta às suas necessidades materiais e didáticas. Na certeza de que os filhos dos outros poderão ser os amigos dos nossos. E não há pais perfeitos. Apenas muitos que dão o seu melhor, o que já é perfeito.

Se devemos instituir multas para os pais que descuram as suas responsabilidades educativas? Percebo a intenção da ideia, mas considero que a multa mais pesada para qualquer pai ou mãe é ou deveria ser a sua própria consciência perante as dificuldades ou mesmo incapacidades de ajudar os seus filhos no direito inalienável que é a educação. Se nem todos são bons pais é porque eles próprios precisam de apoio. E não estou só a falar de dinheiro, naturalmente. A relação da escola com os pais é, na maioria dos casos, muito proveitosa. Mas a verdade é que é mais fácil educar uma criança ou um jovem do que um adulto. Não obstante o amor dos pais ser tão incomensurável que conseguem, às vezes, autorreavaliar-se e reformarem os princípios da sua cultura familiar. É bom quando se acredita no processo e nas metas de um sistema educativo, também no português, participando ativamente no trabalho que há a fazer em cada realidade local e escolar.

Porque é que temos de pagar a educação dos filhos dos outros?

Porque aos pagarmos a educação dos filhos uns dos outros com os impostos de todos, refiro-me aos que os pagam bem entendido, estamos a garantir, à partida, que todas as famílias poderão defender uma escolaridade obrigatória para os seus filhos. Mesmo que, como sabemos, alguns pais ainda não tenham percebido o verdadeiro impacto formador da aprendizagem em contexto escolar para o bom crescimento dos seus educandos. E, acima de tudo, qualquer pai não consiga encontrar pretextos no seu íntimo, por mais cético que seja, para não participar da educação dos filhos, embora muitas vezes se debata com a difícil situação de desemprego e/ou de divórcio, e, não importa como, consiga cooperar no trabalho escolar com humildade e resiliência face ao aturado processo de aprendizagem de qualquer indivíduo.

Pois não é a consciência individual de participação num coletivo uma das principais aprendizagens a começar no seio familiar e a estender-se ao ensino nas escolas através de experiências pedagógicas especializadas que se querem formativas e diversificadas?
                                                                                                                  Rosa Duarte
 

 

terça-feira, 30 de abril de 2013

O nosso projeto em forma de livro


PREFÁCIO

A minha formação académica, e julgo também a moral, têm sido trabalhadas na área das Humanidades, o que reforça a minha vontade de fazer aqui a devida honra na abertura desta coletânea de textos literários aos meus alunos do 11ºD, saudando-os comovidamente a todos, e a cada um em particular, pela ousadia de corresponderem ao desafio de caminharem lado a lado na senda das palavras embebidas de sentimentos e questionamentos, celebradas por um consentimento autoral coletivo.

Estes são os rapazes e as raparigas da única turma de Humanidades do 11º ano da nossa escola deste ano letivo que querem ser mais que bons comunicadores: querem aprender a revestir cada palavra da sua poeticidade e dar-lhes o brilho que a língua portuguesa merece e respira. Para os alunos que ainda não alcançaram o desejado manejo desta multifuncionalidade, vai uma especial palavra de alento, de agradecimento pelo esforço e pela coragem de mostrarem os seus tímidos passos nesta longa, porém saborosa viagem pelo mundo surpreendente e deslumbrante que é o da criação literária. Na certeza, porém, de que a escrita na literatura é garantidamente amante do inédito e do contemplativo, mas também, e quantas vezes, do solidário e do interventivo, que homenageia a realidade e a humanidade pela observação crítica de outros mundos mais pragmáticos ligados à política social e cultural, à sociologia étnica e financeira dos povos, ao pensamento, à invenção…

A juventude continua a ser prometedora. Mais instruída. Mais familiarizada com o progresso. Cabe-nos a todos nós, educadores, pais e professores, orientá-los e ajudá-los no caminho do investimento individual, cooperativo e associativo.

Escrever é uma forma de marcar presença em cada espaço de identidade, neste caso na sua escola, alargando esse ato de escrita a todos os lugares e a todos aqueles que queiram participar deste seu projeto, lendo-os e encorajando-os.

Apreciar os seus textos, naturalmente também pela devida cumplicidade didática, é valorizar um processo que pode continuar os seus propósitos criativo, pedagógico e recreativo em futuras produções e publicações.

Com o mesmo espírito de liberdade que presidiu entre nós à ideia da construção deste livro, me despeço com a humildade partilhada e a muita alegria consumada.

 

                                                Laranjeiro, 30 de abril de 2013

                                                          Rosa Duarte

                                                    (profª de Português)
 

segunda-feira, 29 de abril de 2013

a poesia no fado colorido


O ARTISTA PORTUGUÊS

Quando ele passa, o artista português
Não anda, levita a pensar, como ao sabor de um pincel
E quando se inspira, põe tal gosto, faz tal onda
Para que se não distinga
Se é corpo humano ou se tinta
Chega ao atelier, salta do objeto para a intuição
Vai parar ao topo da Ilha dos Amores
Entra em êxtase e faz da cor o seu canto
lusíada de poeta e navegador do quadro português.

Quando ele passa com sua boina inclinada
Traz sempre ideias nas mãos e cores no olhar luminoso
Põe com um sorriso na sua tez sonhadora
Inventa nova saudação, e olha cada rosto, curioso
Numa madeixa de cabelo descomposta
Algo modelo que também gosta e lembra
Deveras um artista português que aventura
Num Tejo em amena brisa de giz e pastel
Um mar branqueado de espuma e carinhosas aguarelas.

                                        Alcântara, 29 de abril de 2013

                                                     Rosa Duarte

                              (adaptação da letra do fado «O Marujo Português»)
 

sexta-feira, 26 de abril de 2013

conheces-te?


PASSO POR MIM E JULGO VER-ME

Passo por mim a meu lado

Julgo-me tão bem conhecer

Leio no meu rosto o espelho do amanhecer

Penso nas palavras antes de escolher

Distraio-me dos outros que me olham quando passam

E gosto do lugar de onde os observo

Estou perto de mim e nada me afasta

Do que sinto e do que rabisco

Trago no bolso um papel colorido

Cheio de letras algo desenhadas

E profundos pensamentos luminosos de inspiração

Julgo que sou eu que os penso e os invento.

Fico inebriada ao sentir-me lendo-os

Mas onde estavam eles antes de os parir?

O meu laboratório de poesia é um r/c alugado.

Sou inquilina do sentimento temporário.

Passo por mim e julgo ver-me

E julgo conhecer-me

Sempre dentro de mim.

                                                                                      26 de abril de 2013  
                                                                                                  Rosa Duarte                              

segunda-feira, 22 de abril de 2013

a arte é a verdade que nos liberta


A ARTE EXPANDE A BELEZA

Não é preciso tirar um curso para apreciar a beleza da arte. A arte em cada manifestação humana de vida. Basta dedicar-lhe um pouco de tempo e gratidão. Assim é a natureza, que já é bela. Mas quando a contemplamos, parece-nos mais deslumbrante. Como se o olhar humano beijasse cada paisagem, cada pedaço de terra, e a sua comoção se liquefizesse em gotas de orvalho em cada pétala. Essa fascinação, a do artista, ele representa-a e fixa-a, segundo a sua técnica e interpretação.

A arte é uma fonte inesgotável da compreensão que procuramos incansavelmente do ser humano. Por isso, a arte que nos afasta não é a verdadeira arte.

A arte faz-se de pessoas, de tempo e de tempos. De lugares e memórias. De invasões e sobreposições. Passados dentro de presentes. Princípios continuados e decepados. Finais enternecidos. Cheiros ocres de pensamentos fertilizados. Despedidas difíceis. Sonhos eternizados. Todas as cores numa só. E algum reggae. E de interrogações...

Para onde levam as pessoas que sempre as conhecemos? O corpo gasta-se, contorce-se e apaga-se, como um lápis numa folha de papel. Mas mesmo a marca mais leve de um simples traço, é indelével aos olhos do amor de quem o traçou.

Deixamos de poder tocar na carne. É ocultada e fundida com a terra. Mas a memória também alimenta a obra. As interrogações...

O teu pai? O teu irmão? A tua tia?

Estão tapados por grossos grãos de terra. Estranho...

Estou a esquecer-me dos seus rostos, das suas vozes, dos seus gestos e dissertações… Colaram-lhes a boca, os rostos quase encolheram, endureceram, embaciaram, mas escondem um levíssimo sorriso para os olhares mais sentidos e entendidos.

A arte de amar e reconhecer o interior. O chegar, o ficar, o debandar. Voar para casa. Fluir com o tempo. A beleza eternizada na pele rosada luminosa e transformada em socalcos gretados de despedida. Fixados no papel e no ecrã da mente. O projeto humano que não se esgota na ausência.

Sentir likes na vida com arte.

E um contínuo até já. Cumprimento clicado com os dedos em pele de arte e ativar um novo post no ciclo de vida.

Palavras em digressão pela poesia.

 

                                                                 Rouxinol, 22 de abril de 2013

                                                                            Rosa Duarte




 

sexta-feira, 12 de abril de 2013

uma aragem poética...


VERA PRIMA


Entras a sorrir  pequena deusa amiga

Largas portas esconsas meias e adentro

Mal dás por quem te vê e olha expectante

E te desvenda no canto com enlevo no olhar

Ansiado entusiasmo de vera tão primorosa

Em camisinha fresca solta e decotada.

 

Ocultas o ninho do gesto breve e seguinte

Cheio de instantes privados por quem és

Não me queres perto do sol algo pessoa

Que me despertou o que há de ti

E libertou nossos corpos do abafo sentimento

Recobro sereno do cansaço invernoso.

 

Enlaça-me.

 

Devolve-me os braços da amizade fugidia

Ao caminho dos beijos e da temperada ternura

Incenso com palavras esgrimidas acres mas doces

E risotas afiadas  salivas cálidas e íris reluzentes

Em enleio somos sonho realidade.

 

Venham cumplicidades encantadas da tua alegre

Camaradagem e cobre-me da companhia soalheira.

 

Sou feliz  contigo   a chilreios desmesurados

Frescuras da quase esfumada cantaria

Encanto das novas sonoridades

Coroadas de tuas anímicas vegetações.

Azul amarelo esverdeado avermelhado

Paleta e tela espelhadas  esplanadas

Saborosamente sombrias

Arejada e conservada  és tão senhora

Figura escultural da tua humana

Secreta  amável  terna graciosidade.



Viçosa verdade original.

 
                                                        Rosa Duarte
                                       Rouxinol, 11 de abril de 2013