sexta-feira, 19 de junho de 2026
Baixam-se as luzes. O apresentador acalma o entusiasmo. As palavras desenham o momento. Os olhos dos músicos, dos espetadores, estão aguardando a escolha do fado. Para trás ficaram as afinações das guitarras. Para trás, ficaram os rumores do grupo que se vai aquietando. Acertam-se os tons, a melodia, o compasso. Fazem-se ouvir sucessivos acordes que evocam alguma improvisação na cumplicidade dos três. Da aparente desordem nasce a melodia tradicional. Estamos a escutar o fado. A voz do/a fadista irrompe suave ou energicamente. Em crescendo. Há o compromisso com o poema vestido de notas musicais. Há um enredo cantado do quotidiano. Novo crescendo sentimental que o/a fadista canta com entrega e verdade. Sem silêncio, não há fado. O público não se pode distrair, inventar, mentir. Será crime se o fizer. Somos pequenos deuses na verdade dos sentimentos. Só quem vive o fado e para o fado sabe que ele é mais do que um momento: é a vida de quem partilha dor, alegria, palavras dançantes com a melodia. Só com respeito nasce o fado. Nem egos, nem mexericos. Apenas a humildade de quem se oferece ao fado.
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